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Confraria gastronómica do mar

Inspirados pelo mar que os viu nascer e pela terra que os criou, um grupo de matosinhenses fundou em 1999 a Confraria Gastronómica do Mar. O propósito é preservar, defender e divulgar a gastronomia do mar. Certos de que o consumo de peixe “dá mais vida aos anos e mais anos à vida”, os membros desta Confraria sabem o valor de uma alimentação feita com base na dieta atlântica. Matosinhos descobre-se em frente ao mar, nas areias das praias que tantos visitam e passeiam em busca de tranquilidade, nas águas onde, não só se descobre o banho retemperador, mas também se vai buscar o alimento, a energia para a labuta do quotidiano. Foi assim no passado, quando Matosinhos fervilhava com toda a sua actividade piscatória e de indústria ligada às conservas. Foi assim num passado mais remoto em que os romanos aproveitavam as excelentes condições geográficas daquela terra para aí fazerem o garum, condimento ou aperitivo tão apreciado na sociedade da Antiga Roma. É assim, ainda hoje, com a larga profusão de restaurantes em Matosinhos que faz com que esta cidade seja amplamente procurada pela sua boa e original gastronomia.

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Apesar do abandono da pesca e de, hoje, os barcos não colorirem o mar, Matosinhos apresenta a boa tradição gastronómica e a oferta da restauração sabe manter de forma singular as tradições gastronómicas que caracterizam a região. A Confraria Gastronómica do Mar defende esse património, realçando os benefícios do consumo de peixe fresco e afirmando as práticas tradicionais de o preparar. Para aqueles confrades que trajam de verde e cujos símbolos maiores são o peixe e o tridente, “o peixe deve nadar três vezes: em água, em molho e em vinho”. Esse será talvez o segredo da boa preparação de um bom peixe acabado de pescar no mar atlântico que banha Matosinhos. Depois, o peixe é marinado num bom molho e, de seguida, usufruído entre amigos sempre acompanhado de um bom vinho.

Matosinhos é uma referência gastronómica no Noroeste português. Difícil seria voltar as costas ao apelo do mar e da expansão de horizonte que o viver junto do oceano permite. Por isso, Matosinhos soube ir além do horizonte, desenvolvendo-se com um parque industrial e criando na cidade uma áurea de júbilo à volta da arquitectura contemporânea portuguesa. Terra que viu nascer Álvaro Siza Vieira, guarda obras de referência na carreira deste arquitecto, como a Casa de Chá da Boa Nova e as Piscinas das Marés. Estes são motivos mais do que suficientes para que admiradores das obras do ‘mestre’ galardoado em 1992 com o prémio Pritzker visitem Matosinhos e aí busquem a inspiração que serviu a Siza Vieira e a outros nomes consagrados da arquitectura portuguesa, como Eduardo Souto Moura, Fernando Távora e Alcino Soutinho.   

Mas em Matosinhos a terra encosta ao mar e, em tempos, a maioria subsistia pela pesca, fazendo com que na incerteza da viagem a devoção fosse para o Senhor de Matosinhos. De acordo com a lenda, no ano de 174 foi encontrado na praia do Espinheiro (Matosinhos) uma imagem de Jesus sem um braço. Várias foram as tentativas de colmatar a falta do braço, sendo que nenhum escultor conseguiu uma solução capaz. O milagre dá-se quando uma pobre mulher que andava a recolher alguns paus para fazer uma fogueira percebe que um dos paus teima em saltar do fogo, e ouve a sua filha surda-muda gritar: “Mãe, esse é o braço do Senhor de Bouças”. Perante a comoção de todos os que assistem, percebe-se que aquele pau era mesmo o braço do Senhor de Bouças, mais tarde Senhor de Matosinhos. Certo é que era esta a imagem invocada sempre que no mar os pescadores corriam perigo. A imagem do Senhor de Matosinhos encontrou resguardo e acolhimento, após a ruína do Mosteiro de Bouças, numa igreja que foi construída para o efeito e que surpreende pelas obras de João de Ruão, Tomé Velho, Luís Pereira da Costa e Nicolau Nasoni. 

O Senhor do Padrão, também conhecido por Senhor do Espinheiro ou Senhor da Areia, retratava o local onde, segundo a lenda, apareceu a imagem do Senhor de Bouças, mais tarde, conhecido como Senhor de Matosinhos. Até ao início do século XX, tal monumento impunha-se pelo forte impacto visual, pois o zimbório, por se encontrar isolado, era visível a muitos quilómetros de distância. O desenvolvimento de Matosinhos apagou muito da imponência do monumento. Não obstante, a comunidade piscatória não esquece a importância religiosa do local e, no dia 1 de Novembro, são muitas as velas que brilham em memória dos pescadores falecidos no mar. 

Matosinhos brilha pelo mar, pelo areal, pela marca da arquitectura contemporânea, pela vida que agita a cidade, mas brilha, sobretudo, pela gastronomia. Não só o peixe fresco, mas também as práticas tradicionais de o cozinhar. Sente-se a marca da dieta atlântica. Por isso, os confrades são recebidos por sábias e assertivas palavras do Mestre: “Chegaste a bom porto. Ficas ancorado na nossa Confraria. Que sejam fortes as amarras, propícias as marés, abundantes e saborosos os repastos e alegres os convívios. Que te sintas aqui como peixe na água”. Frases certeiras que lembram a vocação marítima, a proximidade ao mar e, sobretudo, a amizade e fraternidade que pairam à mesa entre os confrades da Confraria Gastronómica do Mar.  

* presidente das Confrarias Gastronómicas Portuguesas