Internacional

López desafia Maduro

O homem que quer derrubar Nicolás Maduro da presidência da Venezuela voltou à carga. Detido há mais de um ano na prisão militar de Ramo Verde, Leopoldo López convocou para sábado um protesto antigoverno, pacífico, e anunciou que está em greve de fome. Mas, cá fora, os apelos de um dos rostos mais mediáticos da oposição já criaram divisões na coligação oposicionista MUD, que não vai apoiar a manifestação.

Num vídeo gravado por López na prisão, o líder da Vontade Popular e ex-presidente da Câmara de Chacao lamenta que, 15 meses após as manifestações que levaram milhares às ruas e resultaram na morte de mais de 40 pessoas, a situação esteja “pior”, com “mais filas, mais inflação, mais escassez, mais insegurança, mais corrupção”.

López pediu uma “forte, expressiva e pacífica manifestação” para sábado, exigindo “a liberdade para todos os presos políticos, o fim da censura e da repressão e a marcação das eleições legislativas”, agendadas para 2015 mas ainda sem data definida.

De barba crescida e crucifixo ao peito, o venezuelano educado em Harvard diz ter decidido, com Daniel Ceballos, iniciar no “próprio dia”, domingo 23, quando o vídeo foi colocado no YouTube, uma greve de fome. Ceballos - ex-presidente da Câmara de San Cristóbal também detido como López por alegada conspiração e incitamento à violência, e sem julgamento marcado - foi transferido no fim-de-semana para um anexo da Penitenciária Geral, longe de Caracas.

O advogado de defesa considerou a mudança “uma violação dos direitos humanos”, porque não foi informado da transferência nem houve ordem de um juiz. A mulher de Ceballos descreveu o local como “uma prisão do tipo nazi”.

Na segunda-feira, o defensor del Pueblo (provedor de Justiça que promove e defende os direitos humanos no país) negou que López tivesse concretizado o plano de greve de fome. Porque no domingo, garantiu Tarek William Saab em declarações à estação colombiana Blu Radio, “a Provedoria viu-o e constatou o seu estado de saúde, os filhos dele visitaram-no e almoçaram juntos”.

López pode contar com apoios de peso fora da Venezuela - como o Clube de Madrid, um grupo de ex-líderes mundiais que no mês passado enviou uma carta aberta ao PR venezuelano pedindo a libertação de “todos os cidadãos que estão presos por terem exercido o seu direito de liberdade de expressão”. O Clube inclui nomes como o ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González (que se prontificou a integrar a equipa de defesa de López), o ex-PR timorense Ramos-Horta, ou o também ex-PR do Brasil Fernando Henrique Cardoso.

Só que, na Venezuela, o apoio fractura-se. A coligação dos partidos da oposição MUD não estará representada no sábado. Henrique Capriles, que quase venceu Maduro nas presidenciais de 2013, confirmou a presença pelo Twitter: “Temos de meter na cabeça que somos todos venezuelanos, que a comunidade está primeiro do que um partido político”.

ana.c.camara@sol.pt