Cultura

Enchente à vista em Serralves

Em 2014, foram mais de 140 mil os visitantes do Serralves em Festa, pulverizando todos os recordes. A 12.ª edição arranca amanhã, às 8h, com a tradicional visita matinal ao parque, e a previsão de bom tempo faz antever uma nova enchente. “Estamos preparados para todos. Se tivermos à volta de 100 mil pessoas já será muitíssimo bom”, reconhece Cristina Passos, uma das responsáveis pelo festival de entrada livre que, durante 40 horas consecutivas, enche o Museu e o Parque de Serralves, no Porto, com as mais diversas artes. Música, dança, circo contemporâneo, instalação, teatro, cinema e oficinas para os mais novos fazem parte do cardápio.

Serralves em Festa recebeu 140 mil visitantes no ano passado. Anabela Trindade

Trata-se do maior festival de expressão artística contemporânea em Portugal e um dos maiores da Europa, com centenas de eventos, pelo que destacar alguns é tarefa difícil. Ainda assim, terá especial relevo a actuação dos Pop Group, banda de culto do pós-punk que se desintegrou em 1981 e voltou aos palcos em 2010. Os britânicos dão início à festa no prado, à meia-noite de sábado, que depois se prolonga noite dentro com música electrónica. O novo espectáculo da companhia francesa Les Philébulistes, que envolve seis trapezistas numa estrutura de 18 metros de altura que gira sobre si própria, é outra das apostas fortes.

A arte que saiu à rua

Mas não é só nos 18 hectares de parque que se desenrola o Serralves em festa. O Museu permanece de portas abertas durante as 40 horas e há duas novas exposições para conhecer. A mais importante chama-se ‘Um Realismo Cosmopolita – O Grupo KWY na Colecção de Serralves’ e oferece uma perspectiva do trabalho de um colectivo que, tal como muitos artistas nos dias de hoje, não sentia pertença a um espaço geográfico, mas sim a um tempo de mudança. O colectivo de que fizeram parte o casal Lourdes Castro e René Bertholo, António Costa Pinheiro, João Vieira, José Escada e Gonçalo Duarte, o búlgaro Christo e o alemão Jan Voss tinha em Paris o seu principal eixo; de início, eram quase todos meros desconhecidos, mas foram ganhando fôlego durante o período de edição da revista KWY (três letras então inexistentes no alfabeto português, que podem ser lidas como Ká Wamos Indo), entre 1958 e 1964.

A publicação e as obras que realizaram durante esse período retratam a fuga à estagnação que então se vivia em Portugal e os cruzamentos estéticos do pós-II Guerra Mundial. O colectivo não tinha um programa estético bem definido, mas a fuga ao abstraccionismo e a incorporação de materiais do dia-a-dia tornaram-se fortes tendências. “Os efeitos visíveis da reconstrução económica e política começam a ser visíveis. Por isso, tal como a Nouvelle Vague no cinema, o grupo sai para a rua e abandona o estúdio”, explica a curadora Catarina Rosendo, em mais um paralelismo com a actualidade. São emblemáticas as obras em que Lourdes Castro usa pratas de chocolates, a almofada montada numa caixa de Christo ou os cartazes rasgados de Raymond Hains.

Na Biblioteca, pode ainda ver-se ‘Casa de Serralves: o Cliente como Arquitecto’, uma mostra que documenta os avanços e recuos do conde de Vizela na construção de um exemplar único da arquitectura Art Déco, entre 1925 e 1942. A obsessão do industrial têxtil pela habitação perfeita levou a tais despesas que se viu obrigado a vender a propriedade, passados poucos anos sobre a sua conclusão, ao rival Delfim Ferreira.