Politica

Sá Fernandes: ‘Não posso ter só um deputado e querer tudo’

De regresso à política, o dirigente e candidato do Partido Livre / Tempo de Avançar Ricardo Sá Fernandes deseja que António Costa seja o próximo primeiro-ministro, sem maioria absoluta. Ser ministro num governo com toda a esquerda seria «um sonho».


O programa eleitoral do PS propõe uma «garantia de protecção e defesa do titular de cargos políticos ou públicos contra a utilização abusiva de meios judiciais e de mecanismos de responsabilização como forma de pressão ou condicionamento». O que lhe parece?

Se é assim a medida, acho um absurdo. Aquilo que implicitamente está aqui que é que os titulares dos cargos políticos têm sido abusivamente objecto de acções judiciais ou de responsabilização. Não deve existir nenhum regime especial para os políticos, todas as pessoas têm direito a ser protegidas desses meios abusivos. Pôr isso num programa não é muito bom sinal.

Com Sócrates na prisão, uma medida destas pode ser lida como uma reacção do PS?

Objectivamente, pode ser lida. Eu entendo que não deve ser esse o caminho. Os titulares dos cargos políticos têm de se sujeitar às regras a que estão sujeitos todos os cidadãos. Vimos no caso Face Oculta a confusão que deu o facto de umas escutas em que aparece um primeiro-ministro terem ido ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça. Eu entendo que esses regimes de foro particular devem ser limitados ao mínimo, a situações muito excepcionais, e não alargados. E o que está aí implícito é o alargamento de regimes particulares de protecção para os titulares de cargos políticos. Sou contra.

Concorda com o crime de enriquecimento injustificado que PSD e CDS estão a tentar criar?

Entendo que a formulação do tipo legal tem de ser feita cuidadosamente, mas vejo com bastante simpatia a iniciativa e até estou mais próximo dos propósitos do Governo do que da reacção que algumas das oposições têm tido. Sem embargo de não conhecer o detalhe da proposta sinto-me próximo dos propósitos políticos da ministra da Justiça e da deputada Teresa Leal Coelho.

Marinho Pinto quer que os juízes também sejam obrigados a declarações de rendimentos. Faz sentido?

Não me choca nada. Em geral sou a favor de todas as regras que estabeleçam critérios de transparência.

Quer mesmo ser deputado na próxima legislatura?

O que me move não é ser deputado, é participar neste movimento político. Achei que não devia ficar em casa e respondi ao que está na sigla: «É tempo de avançar». Sou de uma geração que é politicamente traumatizada com aquilo que se passa à esquerda.

O Partido Livre/Tempo de Avançar é um partido com espaço próprio?

Sim. Há um campo enorme para uma formação que possa ter à cabeça uma orientação fundamental, que é a de não recusar compromissos à esquerda. Temos de derrubar o muro de Berlim que ainda existe na esquerda e é terrível para Portugal. Só se fazem compromissos à direita, o sistema está desequilibrado.

Entrar num governo do PS faz parte dessa disponibilidade. Quais são as condições?

Nós não temos a ideia de ir para o governo só por ir. Mas temos essa disponibilidade. E podemos dizer aos eleitores que se houver aproximação entre os nossos programas, se estiverem cumpridas algumas questões-chave, a nossa postura é de compromisso, com uma plataforma o mais alargada possível. Bem gostaria eu de um dia me sentar num governo com o PS, o BE e o PCP. Isso é aquilo com que eu sonho.

Mas isso é difícil.

É difícil e temos de ser realistas. Se o realismo amanhã nos colocar só a nós num governo com o PS, que seja assim. Mas sempre sem fechar a porta aos outros. Nessa base de compromisso, há coisas inegociáveis, mas noutras temos de ter em conta o nosso peso político. Não será o mesmo ter dois deputados ou dez deputados. Não posso ter só um deputado e querer tudo.

Vale a pena perguntar o que é inegociável?

Sim. Nós não abdicaremos de colocar em cima da mesa a questão da reestruturação da dívida. Porque Portugal não vai pagar a dívida como neste momento está definida, temos de reduzir o peso dos juros, para dar o salto para o desenvolvimento.

Foi secretário de Estado num Governo em que Costa era ministro, e foi ele que esteve na base da sua saída prematura do governo. Como se dá hoje com o líder do PS?

É público que não me desentendi com ele por causa da actividade governativa. Fui eu que tomei a iniciativa de sair por causa do embaraço com o processo de Camarate. Mas continuei a trabalhar com o Governo na estrutura da reforma fiscal. E essa divergência não me impediu de uns anos depois ter sido em minha casa que           António Costa e o meu irmão e outras pessoas do PS e do BE, se tenham entendido para a Câmara de Lisboa. Enfim, esse desentendimento com António Costa não deixou marcas pessoais ou políticas.

Deseja que António Costa seja o próximo primeiro-ministro?

Desejo que seja o próximo primeiro-ministro. Tenho consciência que o meu partido não tem condições para designar o primeiro-ministro. Sou realista. Mas espero que o PS não tenha maioria absoluta, seria muito mau para o país e para o PS.

Que lições tira das eleições autonómicas em Espanha, que deixaram o PSOE dependente de alianças com o Podemos para governar?

O espaço que o PSOE deixou foi tomado pelo Podemos, no fundo foi tomado pelos cidadãos. E é isso que em Portugal o Partido Livre/Tempo de Avançar pode fazer. Pode ser um veículo para incorporar esse enorme campo, cada vez mais alargado de pessoas que à esquerda não se revêem no PS nem nas outras forças tradicionais. Espero que em Espanha os entendimentos que possam vir a existir entre o PSOE e o Podemos sirvam de exemplo em Portugal.

Fez parte de um governo do PS e essa foi a sua área política. O que o afastou do PS?

Antes de aparecer o Livre tinha uma identificação com o PS. Mas acho que o PS foi um partido que, tendo muita gente extraordinária e impoluta, se deixou aprisionar por muitos interesses económicos. A nível autárquico e nacional. O PS tem uma enorme responsabilidade na promiscuidade entre interesses públicos e privados e na supremacia que muitos interesses privados tiveram na gestão da coisa pública.

A candidatura de Sampaio da Nóvoa tem ganho força à esquerda. Já decidiu se o apoia?

Não tenho posição política definida. Sampaio da Nóvoa, Henrique Neto e Paulo Morais merecem-me consideração e respeito, são candidaturas que enriquecem a democracia.

Não sabe em quem vai votar?

Não. Mas, sem me comprometer, posso dizer que há uma personalidade que me seduz mais, que é Henrique Neto. Tem uma história de vida extraordinária e precisamos para Presidedente da República de pessoas que não tenham uma vida plana.

Não apoiará Sampaio da Nóvoa?

Não sei ainda. Mas ao nível das personalidades, o Henrique Neto entusiasma-me mais. É possível que o Livre o venha a apoiar até, mas a prioridade não é eleger um Presidente da República, são as legislativas. Pôr as pessoas em campo e recuperar a alegria na política. As primárias são isso e sinto muita alegria nas pessoas que estão neste processo do Livre. A grande distinção que temos para os partidos de Marinho Pinto e de Joana Amaral Dias é que vivem em torno de uma pessoa. Nós somos um movimento de cidadãos.

Seria com alegria que voltaria ao governo?

Só o faria se sentisse prazer nisso. Eu preciso de estar bem disposto para que as coisas me corram bem.

Agrada-lhe ter Marinho Pinto como parceiro de governo? Onde o situa politicamente?

Não tenho nada contra. Não faço exclusões. O Marinho Pinto, que conheço, tem instintos de esquerda, onovo partido dele ainda não sei o que é.

A fragmentação da esquerda é muito negativa?

Claro que é muito negativa. Mas essa fragmentação existe porque a esquerda é mais sectária do que a direita. Cada uma das esquerdas está convencida que é dona de toda a verdade e faz muros à sua volta. O Partido Livre/Tempo de Avançar é contra todo o sectarismo e favorável aos compromissos. Um partido com 1% não poder falar como se tivesse 30%, isto é que é democrático.

Como é que olha para o Governo do Syriza, que apareceu como uma oportunidade de mudança?

Com preocupação com o que possa acontecer à Grécia. Olhando para trás, é evidente que o Syriza não geriu da melhor maneira a situação, mas a Europa também não. E eu, a última coisa que faria era abandonar o Syriza. O Livre tem uma posição de solidariedade com o Syriza. E Portugal deve colocar-se ao lado do Syriza na renegociação da dívida.

manuel.a.magalhaes@sol.pt