Sociedade

Reparar Kamov vai custar 4 milhões

Foram mais de 200 as desconformidades detectadas nos helicópteros de combate aéreo a incêndios, durante uma auditoria realizada pela empresa vencedora do concurso para a operação e manutenção dos cinco Kamov do Estado português. Fontes do sector estimam que pôr as aeronaves a funcionar em condições de segurança custará quatro milhões de euros e demorará cerca de um mês.

Motores sem identificação nem registo, falta das reparações obrigatórias em fábrica e extintores sem manutenção há mais de um ano são alguns dos problemas detectados na frota, cuja manutenção esteve, até Abril passado, concessionada pelo Estado à empresa Heliportugal.

As falhas foram, de resto, apontadas numa providência cautelar interposta pela empresa United Jet Services para impugnar o concurso que deu a operação e manutenção dos Kamov à Everjets, empresa que sucedeu à Heliportugal.

Na acção - que foi indeferida -, a United Jet Services garantia ser "impossível à data determinar qual é o potencial de voo dos helicópteros à data da consignação". Explicava que "os números de série dos motores" que constavam do registo de um dos aparelhos "não são os mencionados" no caderno de encargos. E reforçava haver uma aeronave com as licenças "caducadas ou não renovadas pela simples razão de que esta não está aeronavegável há vários meses". A situação descrita na acção aponta mesmo para a possibilidade uma das aeronaves "poder ser dada como não reparável".

Peças penhoradas por dívidas

Mas há mais: estando a Heliportugal em Processo Especial de Revitalização (PER) - com uma dívida que ultrapassa os 150 milhões de euros -, a United Jet Services aponta o facto de alguns motores terem sido "dados como garantia hipotecária em processos executivos da Segurança Social".

"É por demais evidente que as aeronaves contêm (...) diversos equipamentos que não são propriedade do seu proprietário", lê-se na acção, a que o SOL teve acesso.

O dossiê dos Kamov é particularmente sensível, já que o período de maior risco de incêndio vai coincidir com a pré-campanha eleitoral. O primeiro-ministro já foi informado dos problemas que afectam o meio aéreo mais pesado de combate a fogos.

Oficialmente, o Ministério da Administração Interna (MAI) assegura que apenas "dois Kamov não estão operacionais por motivos de avaria", estando em curso a sua reparação. A mesma fonte justifica com o "processo de consignação das aeronaves" à Everjets o facto de a frota de Kamov não estar já no terreno, no combate aos incêndios.

De resto, o MAI assegura que os aparelhos estarão "todos disponíveis para a Fase Charlie, que se inicia a 1 de Julho" e que é a de maior risco de incêndio.

O SOL contactou a Everjets, que se escusou a comentar o caso, por estar sob uma cláusula contratual de sigilo.

margarida.davim@sol.pt