Vida

Mulheres têm de provar que o são para jogar no Mundial de Futebol feminino

Não são só os casos de suspeita de corrupção que têm posto a FIFA em alvoroço nos últimos tempos. Outras polémicas, mais antigas, voltam a afirmar-se antes do apito inicial do Mundial de Futebol feminino, no Sábado, no Canadá. É que segundo o ponto 4 do regulamento do organismo que tutela o futebol mundial, as provas masculinas “têm de ser disputadas por homens” e as femininas “por mulheres”.

Podem parecer frases saídas da pena do sr. de La Palisse, mas servem para legitimar uma prática condenada por médicos e cientistas quase unanimemente. Para poderem jogar nos relvados canadianos, as jogadoras têm de provar que são mulheres, apresentando resultados das últimas consultas ao ginecologista e, se for caso disso, submetendo-se a exames mais profundos. O caso da sul-coreana Park Eun-sun, uma avançada de 1,80 m e de forte constituição física, é paradigmático. Em 2013, seis treinadores de equipas adversárias apelaram a um boicote aos jogos que os iriam opor à equipa de Park até que ela provasse “que não é um homem”. A atleta acabou por não ceder, mas mudou-se para um clube russo e irá ao Mundial pela sua selecção.

O Comité Olímpico Internacional (COI) também já tinha passado por uma polémica semelhante quando, nos últimos Jogos Olímpicos, em Londres, a sul-africana Caster Semenya levantou suspeitas sobre a sua feminilidade por apresentar grandes níveis de testosterona. Para o COI e para a FIFA este é um indicador a ter em conta, bem como algo tão prosaico quanto a quantidade de pêlos que se tem no corpo. Katrina Karkazis, uma médica norte-americana citada pelo diário espanhol El País, critica a validade científica dos regulamentos das duas instituições, que são “humilhantes” para as mulheres. Mas, segundo ela, o critério da FIFA vai mais longe no abuso: “O castigo é severo. As mulheres que recusem participar neste escrutínio humilhante são sancionadas. E, pior ainda, as que não encaixem no seu género podem ser suspensas”.

Há muito que ginecologistas e investigadores se opõem a estes métodos, mas os regulamentos mantêm-se. Federações de países como a Alemanha ou a Inglaterra já confirmaram que as suas atletas passaram na verificação de sexo e que estão, por isso, aptas a jogar o Mundial.

ricardo.nabais@sol.pt