Internacional

Brasil, impávido colosso

É provável que pouca gente repare, mas sempre que, antes de um jogo de futebol, toca o hino do Brasil, o tempo parece demorar mais a passar. Na verdade, o trecho interpretado na maior parte dos estádios por este mundo fora é uma versão reduzida da música que tenta traduzir a identidade do país. Mas descansem os picuinhas dos recordes inusitados: o hino mais longo, em duração musical, é o do vizinho Uruguai e a letra mais longa - campeã sem adversários próximos, sequer - é a do hino da Grécia, com 158 versos. Dos 52 versos do brasileiro (descontados os nove de uma introdução que pouca gente conhece) ouvimos apenas 24 e num deles se descreve o país como 'impávido colosso'.

E é esta a expressão mais usada e abusada para definir o país. Desde os inícios do século XX até um célebre verso de Adriana Calcanhotto, que pergunta 'o que quer dizer impávido colosso?', são várias as personalidades da cultura, da política ou das artes que questionam o facto de o seu país ser 'impávido' (tranquilo, destemido, intrépido). Quanto ao 'colosso' estamos conversados. É uma realidade objectiva. Com mais de oito milhões de km2, é o 5.º maior país do mundo, se adicionarmos à lista a Antárctida, o continente gelado (e deserto). Só é superado, então, por aquele gigantesco bocado de gelo (é o 2.º da lista), pela Rússia, Canadá, China e EUA. Para se ter uma ideia, Portugal caberia 100 vezes naquele território, que é, ainda, cerca do dobro da área de todos os países da União Europeia juntos.

A população é suficientemente grande para poder albergar todos, os impávidos e os menos impávidos, de todos os géneros, etnias, credos e idades: mais de 200 milhões de almas espalhadas desigualmente pelo extenso território, com a expectativa de crescimento de mais de 895 mil novos indivíduos até ao fim do ano. Para qualquer leitor europeu ou norte-americano parece mentira, não? Isto segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do site Country Meters (http://countrymeters.info/pt/Brazil).

Carne a rodos

A desigualdade - não é a única, nem a mais importante, como adiante se verá - da distribuição demográfica leva a que muitas realidades brasileiras possam servir de exemplo para os tais coleccionadores de recordes. É o maior país do hemisfério Sul e da América Latina. Tem a maior e mais populosa cidade da América Latina (São Paulo, com mais de 11 milhões de habitantes) e a segunda maior produção de carne do mundo.

Aqui convém fazer uma ligeira pausa nos superlativos. Outro índice da realidade brasileira que supera a escala global é o facto de a produção alimentar anual superar a da maior parte do planeta, e ainda assim - os números melhoraram nos últimos anos, é certo - até há bem pouco tempo, quase um terço da população não tinha acesso a ela. De acordo com um estudo da Universidade de São Paulo, conduzido por Flávia Bliska e Joaquim Guilhoto, a produção pecuária mede-se por milhões, muitos para exportação. “Essas estimativas mostram que atualmente o Brasil responde por cerca de 7,3% da produção mundial conjunta” de carnes, lê-se no documento. “Ou especificamente: a) cerca de 12,9% do volume total produzido de carne bovina; b) 2,0% do volume total produzido de carne suína; e c) 11,6% do volume total produzido de carne de frango”. Note-se que estes dados são relativos ao início do século XXI.

Ao mesmo tempo, só lentamente, neste século, a população viu as tradicionais desigualdades no acesso à alimentação, saúde e ensino reduzirem-se ligeiramente. O IBGE tem um conjunto de quadros que definem estas realidades num item de consulta prática no seu site (http://www.ibge.gov.br/home) no que toca aos itens que compõem um dos lemas das sociedades democráticas e que Sérgio Godinho sintetizou tão bem: paz-pão-habitação-saúde-educação.

Para não mergulharmos em índices numéricos sem fim, fica a ideia da evolução do país, segundo o índice de Gini, que leva o nome do sociólogo italiano que o concebeu em 1912. Trata-se de um coeficiente utilizado para calcular a desigualdade da distribuição de rendimento, que consiste num número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à igualdade total (todos têm o mesmo rendimento) e 1 (ou 100) à completa desigualdade (a tal relação entre os 1% que têm tudo contra os 99% que não têm nada).

Samba, futebol e 'jeitinho'

Ora segundo dados de 2012, o Brasil terá alcançado o índice de 0,519 (51,9, se a escala for de 100), o mais baixo desde os chamados 'anos dourados' entre o final dos anos 50 e o início dos 60. Quem consultar dados online, verá que o caminho ainda é longo: Portugal é o sexto país mais desigual da Europa (UE mais Sérvia, Suíça, Islândia e Noruega, dados do Observatório das Desigualdades, 2014) e vai nos 34,2 (ou 0,342 se o topo da escala for 1).

A ditadura militar que atravessou duas décadas da História recente do país (1964-1984) e os anos de transição para a democracia, com híper-inflação e desemprego, levaram as desigualdades ao paroxismo (no início dos anos 90, o coeficiente ultrapassou os 60).

Mas falar de Brasil é também dizer, inevitavelmente, que por todo o lado abunda o 'jeitinho' (desenrascanço, entre nós). Casos como o 'mensalão' - explicado de maneira muito simples, uma espécie de rede de pagamentos a parlamentares e afins para fazer passar medidas governativas, entre outros esquemas - ou o da corrupção na Petrobras, a petrolífera estatal, têm enchido as páginas dos media.

A corrupção, contudo, faz parte de todo um ideário do país, a par da violência nas favelas das grandes cidades e do futebol, que tem sido marcado por contrastes - a 'canarinha' é a selecção com mais títulos mundiais (cinco) e, ao mesmo tempo, tem a maior derrota já sofrida numa meia-final de um campeonato do mundo, 7-1 frente à Alemanha, e ainda por cima em casa, no Mundial do ano passado. O 'jeitinho' é uma tradição, atravessa todos os ramos de actividade no país, da política ao Carnaval, passando pelo futebol ou pelo sector económico privado. O que fica, sobretudo, do impávido colosso, é a palavra contradição. Afinal, estamos a falar de um país em que, como dizia o humorista Jô Soares, “quando o feriado é religioso, até ateu comemora”. 

ricardo.nabais@sol.pt