Olivier Rolin: ‘As nuvens podem atravessar qualquer fronteira’

Primeiro encontrou um álbum de desenhos enviados de um gulag. Depois o seu autor, uma vítima anónima de Estaline, que levou a este escritor francês apaixonado pela Rússia três anos de trabalho que resultaram no aclamado O Meteorologista.

Começou com uns desenhos inocentes e acabou com uma história de violência. É simbólico?

É um simbolismo que não procurei, mas foi de facto uma vida que começou por ser bastante agradável e que acaba de forma muito dolorosa, como aconteceu a muitas pessoas no regime estalinista. Esses milhares de pessoas que agora vemos em fotos levavam vidas comuns e não podiam imaginar que acabariam executadas.

Foi só puxar o fio para tudo isso começar a surgir?

Desde o início que sabia que ele tinha sido executado. Só não sabia os pormenores do horror de todo o procedimento. Pensei que podia haver algo de mais heróico. Mas foi no fundo de um fosso, nu, amarrado. E mesmo depois de o Estado ter reconhecido a execução, já depois da morte de Estaline, nunca quis dizer quando e como tinha acontecido. Foram necessários 60 anos de investigação privada para se chegar ao lugar e às circunstâncias.

Estas histórias não o fazem perder o fascínio pela Rússia?

A atracção que sinto é geográfica, pelo maior país do mundo que tem regiões tão pouco percorridas. Mas é também o país onde aconteceu a grande revolução do século XX e onde essa revolução morreu, o que lhe dá um interesse histórico. Mas há também razões sentimentais, e até literárias, pelo espírito contraditório de ser um país tão mal-amado e tão desconhecido.

Mesmo a época estalinista é pouco conhecida?

Em França os intelectuais acreditaram no ideal comunista. E no fim, mesmo quando já se começava a perceber a tragédia que tinha sido a União Soviética, surgiram livros como o Arquipélago Gulag e muita gente os rejeitou como anticomunistas. Sartre recusou o Nobel porque antes tinha sido atribuído a Boris Pasternak e para ele isso era um ataque ao comunismo. Há uma espécie de desconhecimento voluntário sobre os crimes da União Soviética.

Para si foi uma desilusão?

Claro. Fui maoísta quando era jovem. Escrevi o Tigre de Papel sobre como fui percebendo que não era a liberdade humana que esperava. Tive a minha crise moral, como muita gente da minha geração.

Esta personagem é mais forte por não ter nada de heróica?

Num primeiro momento, quando comecei a estudar as cartas, preferia ter encontrado um rebelde. Depois percebi que assim era mais representativo e mais dramático. É muito inocente, acredita que Estaline não sabe o que se passa. Ao mesmo tempo é muito cativante a luta que mantém entre o desespero e o seu ideal.

Seria apenas inocência?

Talvez acreditasse mesmo em Estaline ou talvez soubesse que as cartas passavam pela censura e assim estava a proteger a mulher e a filha. Houve mais de 44 mil mulheres deportadas por serem casadas com inimigos do povo. Acredito que no fim ele já não acreditava na boa vontade do partido mas que se forçava a acreditar porque sem isso toda a vida deixaria de fazer sentido.

Foi apanhado numa situação tão incontrolável como o movimento das nuvens que estudava?

O movimento das nuvens e a imensidão do céu aparece muitas vezes na literatura russa como uma imagem de liberdade e, ao mesmo tempo, como algo que esmaga o indivíduo. Há 15 anos conheci uns meteorologistas russos que tinham escolhido aquela profissão porque as nuvens podem atravessar qualquer fronteira e eles na União Soviética não podiam.

É possível definir o género deste livro?

Não é ficção porque é um relato feito com base em dados tão exactos como documentos da polícia ou as cartas dele. Mas também não é um livro de História, faço suposições pessoais. Para mim é uma investigação, um pouco como A Sangue Frio do Truman Capote. Uma investigação literária.