Economia

A nova missão de Neeleman

Conhecido na aviação por já ter criado de raiz quatro companhias aéreas, David Neeleman é a nova cara da TAP. O Conselho de Ministros decidiu ontem atribuir ao consórcio do empresário de nacionalidade americana e brasileira os destinos da companhia aérea, onde também entra o português Humberto Pedrosa, dono da Barraqueiro.

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Hoje com 55 anos, Neeleman cedo tomou gosto pelos negócios. Nascido nos EUA numa família mórmon com raízes holandesas, aos nove anos já trabalhava no supermercado do avô. “Ficava em cima de uma caixa de leite a receber os pagamentos. Aprendi muito sobre os negócios e, sobretudo, como tratar as pessoas. Aprendi também sobre margens, preços, lucros e propaganda. Foi um período muito bom da minha vida”, recordou, numa entrevista à revista brasileira Época Negócios.

Vida nas favelas

O americano toma contacto com o Brasil através do pai, Gary. Os mórmones têm de cumprir uma missão – um período onde se dedicam exclusivamente à fé num local remoto – e o pai escolheu o Brasil. Depois da missão de três anos, a ligação a São Paulo nunca terminou. Gary, que estudou comunicação, foi anos mais tarde convidado a trabalhar na cidade brasileira, como correspondente da Associated Press. É ali que David nasce e vive até aos seis anos, quando regressa aos EUA.

Na fé e na família, David Neeleman segue os passos do progenitor. Tem seis irmãos e nove filhos. Quando escolhe o local para fazer a missão religiosa, opta também pelo Brasil, onde viaja pela Paraíba e por Pernambuco. Vive e trabalha em favelas e ainda hoje assume que essa experiência lhe trouxe ensinamentos para a gestão. “Passei a maior parte do meu tempo com os pobres e percebi que eram as pessoas mais felizes […]. Quando saí dessa experiência, tornei-me incapaz de pensar que era melhor do que qualquer outra pessoa”, revelou, numa outra entrevista.

Depois da missão no Brasil, David regressa aos Estados Unidos. Casa e dedica-se à faculdade, mas não acaba os estudos superiores. Na secundária já tinha tido notas fracas devido a um distúrbio de défice de atenção – ainda hoje assume que tem dificuldades em concentrar-se para ler ou escrever – e na universidade os problemas continuam. Deixa a faculdade para trabalhar: vai vender pacotes de viagens. O sucesso a angariar clientes para o Havai é quase imediato e a concorrência contrata-o. Não precisa de muito tempo para ter a ideia que iria marcar o resto da sua vida: se vender pacotes de viagens em voos charter dá dinheiro, porque não comprar também os aviões? Cria a Morris Air, que tem sucesso imediato e é mais tarde vendida à Southwest, uma das gigantes do sector.

A transacção não adormece o bicho da aviação, e Neeleman quer voos mais altos. Está na génese da WestJet Airlines no Canadá, como consultor, e cria a JetBlue com o seu próprio dinheiro, nos Estados Unidos. Anos depois, seria a vez da Azul no Brasil.

Em todas as empresas, incutiu a importância de ter trabalhadores satisfeitos, distribuindo parte dos lucros pelos funcionários. “Se olharmos pelos empregados, eles olharão pelos clientes”. As leis da psicologia indicam que quem sofre do distúrbio de défice de atenção tende a ser mais criativo, e David Neeleman levou essa regra ao extremo. Na aviação, foi ele quem criou algumas das mais disruptivas tecnologias do sector: criou os bilhetes electrónicos nas companhias aéreas, a televisão em directo nos monitores individuais dos assentos do avião e o sistema electrónico de check-in que hoje está banalizado nos aeroportos.

A primeira compra

A TAP será a entrada de Neeleman num terreno desconhecido para o empresário. Habituado a criar empresas de raiz, à sua imagem, terá agora de adaptar-se às vicissitudes de uma companhia já existente e cuja operação diária está repleta de armadilhas.

Há uns anos, quando questionado sobre se estaria interessado em dirigir uma das grandes companhias aéreas mundiais, respondeu que não: “Tenho o melhor trabalho do mundo neste momento. É muito mais divertido construir uma companhia aérea do que lidar com as dores de cabeça de uma que já existe”. Os pilotos da TAP que estão contra a privatização irão agora decidir se Neeleman vai divertir-se ou ter dores de cabeça em Portugal.

joao.madeira@sol.pt