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O sabor da cereja

Uma vez, numa mercearia ao lado do Gambrinus, em pleno Inverno, não resisti a comprar umas cerejas, que diziam importados do Chile: gordas, carnudas, de um encarnado muito escuro, enchiam o olho. E afinal sabiam a nada.


Boas, boas, são as nossas, as de Junho (começam a aparecer em finais de Maio, mesmo em carros de rua). Vêm da Serra da Gardunha, que tem condições óptimas para o seu cultivo (frio, altura, microclima).

Foi nos anos 30 do Séc. XX que uma doença nos soutos de castanho levou os produtores locais a optarem pelo cultivo da cereja. A enorme procura fez com que ali se instalassem cada vez mais produtores, em propriedades pequenas, na década de 70.

As primeiras cerejas a serem colhidas e a aparecerem no mercado, ainda em Maio (quanto mais para o final, melhor), são as de Resende, da zona ribeirinha ao Douro. Umas duas semanas antes das da Serra. E por isso se começaram a realizar aqui festivais anuais da cereja, em 2002, agora fixados no fim-de-semana a seguir ao 4º domingo de Maio.

Mas a verdadeira cereja, a que aparece em  força, é a da Serra da Gardunha (ou do Fundão), em pleno Junho, estendendo-se às vezes pelo mês seguinte. Por isso as festas da cereja, nesta área, têm lugar em Junho: de 6 a 8, em Alfândega da Fé, e de 9 a 12 em Alcangosta.

A Câmara do Fundão veio já a Lisboa fazer um evento de promoção deste seu produto, em pleno centro da cidade, na rua do Carmo. E ali ficou anunciado que, de 17 a 23 de Junho, a cereja do Fundão vai ser o elemento de destaque nas lojas lisboetas. A Santini anunciou para essa altura um gelado de cerejas, mas haverá muito mais: além de compotas e licores diversos (a ginga é apenas uma espécie de cereja), pastéis de cerejas, bombons, iogurte grego de cereja, bola de Berlim de cereja, chá preto aromatizado, sabonete artesanal de cereja, sangria de cereja, pão de cereja e até pastéis de cereja.

Uma das vantagens da cereja é a sua difícil conservação (quando têm manchas acastanhadas já estão velhas e impróprias para comer), e a necessidade de a apanhar só quando está madura - porque não amadurece fora da árvore.

Temos assim uma fruta que só se come fresca - e que se vai sucedendo semana a semana, nos nossos mercados, segundo a espécie então em apanha: De Saco (talvez a mais encarnadona escura, firme e doce), B.Burlat, Hedelfingen, Brook's, Van, Summit, Sunburst, Maring, Sweetheart, Earlise, Skeena, Garnet e Bigalise.

Originárias da Ásia, não há agora produto mais nacional. A rota das cerejas, própria para esta época, inclui Fundão, Castelo Novo, Alpedrinha, Covilhã, Belmonte. Porque além do mais, a própria paisagem, com as flores das cerejeiras (consideradas sagradas na Índia), é deslumbrante. Mas trata-se de árvores, algumas das quais dão madeira nobre para móveis. 

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