Vida

Sabe por que razão os autocarros às vezes chegam ‘em grupo’?

É uma situação recorrente, e parece que acontece sempre quando estamos na paragem de autocarro: ‘horas e horas’ à espera do transporte e quando finalmente chega vem outro logo atrás, por vezes até um terceiro de seguida. Na verdade, a explicação é simples, e foi transposta para um pequeno jogo online por um engenheiro de transportes da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Basicamente, se dois ou três autocarros fizerem uma rota circular numa cidade, partindo em tempos diferentes para dar margem, seguem o percurso normalmente com a mesma distância entre eles, e com um número semelhante de passageiros a entrar e a sair nas paragens. No entanto, se um deles tiver um atraso, seja por ‘azar’ nos semáforos, trânsito compacto, um carro em segunda-fila ou mesmo um pequeno acidente, a rota vai alterar-se toda.

O autocarro que se atrasa acaba por demorar mais tempo a chegar à paragem seguinte e esse atraso, mesmo que de pouco tempo, acaba por levar a uma aproximação dos outros autocarros do mesmo trajecto. É uma inevitabilidade matemática.

Por outro lado, quanto maior o atraso, maior é o número de pessoas a chegarem à paragem. Esse autocarro vai demorar mais tempo a receber passageiros e mais tempo também a ‘largá-los’ nas outras paragens. Quanto aos outros autocarros, se tinham ganho algum tempo com o atraso do primeiro, vão ganhar ainda mais pois chegam às paragens e há menos pessoas à espera para entrar.

Em cima de tudo isto está o facto de muitas pessoas, quando vêem dois ou três autocarros, procuram na mesma entrar no primeiro, para chegar mais cedo. Isso leva a que o círculo vicioso se continue a perpetuar até ao fim da rota, onde podem voltar a partir com intervalos de tempo controlados. Quanto maior é o percurso e o número de autocarros a fazê-lo, maior é também a probabilidade de a dada altura se acumularem dois ou mais deles.

Lewis Lehe, que está a fazer um doutoramento em Engenharia dos Transportes, tem um site em conjunto com o web designer Victor Powell, o Setosa. Os dois criam animações, ilustrações animadas e pequenos jogos para explicar situações do dia-a-dia, principalmente relacionadas com o trânsito, ou conceitos matemáticos.

O ‘jogo dos autocarros’ – que na verdade é mais uma simulação, não dá pontos – é simples: uma pista que faz lembrar os jogos de vídeo dos anos 80, dois autocarros e quatro paragens. Os dois autocarros estão separados exactamente por metade do percurso e mantêm essa distância. Podemos clicar num botão para cada um deles, atrasando-o, e depois ver o que mais cedo acaba por acontecer. O ‘atrasado’ é apanhado pelo outro, e transporta sempre mais passageiros.

Noutra simulação do site Setosa são explicadas as ‘ondas de tráfego’. E também quase todos já passámos por isso. É o que acontece quando de repente temos de parar o carro porque o trânsito está parado, mas passados alguns segundos de pára-arranca volta a fluir normalmente, sem uma explicação: nada de acidentes, obstáculos ou engarrafamentos.

A explicação também é simples. Numa situação de trânsito compacto, mas fluido, se um carro abrandar de repente, o de trás tem um tempo de reacção mais lento e trava com mais intensidade, e por aí fora, espalhando-se até por outras faixas. O resultado pode mesmo ser uma situação de travagem total a dada altura, que provoca maior demora no retomar da velocidade e dá sensação de engarrafamento ou acidente.

emanuel.costa@sol.pt