Opiniao

Estados de Alma

1.Evento ou processo. Apostei em uma de duas saídas para o dilema grego antes do Verão: a do Governo de Tsipras do poder ou a da Grécia do euro. Julgo que perdi. Escrevendo às 19:45 do dia 23, tudo indica que um acordo de última hora fornecerá à Grécia o oxigénio necessário para evitar o incumprimento das sua dívidas e, assim, a saída do euro.
 

O meu erro foi ter concebido a grexit como um evento e não como um processo (parafraseando a The Economist). Um evento seria algo que ocorre numa data fixa e de forma abruta; um processo, pelo contrário, vai-se desenrolando, com avanços e recuos, passo a passo, de vitória em vitória até à derrota final.

De facto, mesmo que agora tenha sido possível evitar o desenlace, ninguém acredita que dentro de seis meses ou um ano não estejamos de volta ao ponto de partida. Foi assim várias vezes no passado, com governos gregos que esposavam (pelo menos da boca para fora) os valores da disciplina  do Estado e da economia liberal de mercado que regem a Europa. O que não será com um Governo que não acredita na economia de mercado, equaciona o  capitalismo como exploração e a cooperação europeia como imposições imperiais?

2.A solução Buiter. Willem Buiter é economista-chefe no Citi. Antes tinha sido um académico com alguma notoriedade na LSE - London School of Economics. Num op-ed no Financial Times do passado dia 22 - 'There is a way past insanity over Greece' - apresentou uma proposta interessante para o problema grego que, quanto sei, tem passado despercebida. A proposta parece reconciliar o irreconciliável: o desejo grego de ser senhor dos destinos e a protecção dos credores da Grécia.

A proposta tem cinco pontos essenciais: (i) fim da exigência de austeridade ou reformas estruturais - o Governo faria o que entendesse melhor; (ii) compra pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade de toda a dívida da Grécia ao FMI e às instituições europeias por forma a libertar Atenas da necessidade de servir esta dívida nos próximos anos; (iii) Cessação dos empréstimos das instituições internacionais à Grécia (o que implicaria, em particular, a suspensão do actual programa de resgate); (iv) inelegibilidade da dívida grega como colateral junto das operações de financiamento do BCE; (v) finalmente, recapitalização e reestruturação do sistema bancário. O tempo é de pensar fora da caixa.