Sociedade

Jogo espírita causa pânico nas escolas

De repente o pânico instalou-se no recreio de uma escola básica em Alcântara. Algumas alunas de seis e sete anos começaram a chorar e a correr para as auxiliares pedindo-lhes para as levarem para casa. “Estavam aterrorizadas com medo do Charlie e ninguém as conseguia acalmar”, conta ao SOL uma funcionária da escola, explicando que o motivo para tanta confusão era um jogo de espiritismo infantil que as estudantes do 1.º e 2º ano estavam a jogar.

Este desafio, conhecido como 'Charlie Charlie' e no qual as crianças e adolescentes evocam um suposto espírito com este nome para obterem respostas sobre o futuro, está a correr mundo e chegou recentemente a Portugal. Mas o medo e a ansiedade que causa aos alunos está a levar muitas escolas nacionais a proibir o jogo dentro das suas instalações. O mesmo tem ocorrido em vários países, como no Brasil, onde no mês passado várias escolas de Manaus suspenderam as aulas, ou em Inglaterra, onde alguns colégios católicos proibiram o ritual. Para fazer o desafio basta uma folha de papel sobre a qual se colocam dois lápis em forma de cruz, e se escrevem as palavras sim e não (ver infografia). Depois fazem-se perguntas a 'Charlie', que supostamente responde através dos movimentos dos lápis.

Foi este ritual que assustou as alunas daquela escola pública. “Estavam apavoradas porque diziam que o lápis se tinha mexido”, conta a funcionária. As auxiliares acalmaram-nas, garantindo-lhes que o o lápis se tinha movimentado por causa do vento e não de nenhum espírito. Mas no mês passado a direcção do estabelecimento de ensino decidiu proibir a brincadeira.

O mesmo aconteceu na Escola de Quinta, um colégio em Sintra com mais de 200 alunos do 1.º e 2.º ciclos: desde o início do mês, as crianças já não podem sair para o recreio com lápis e folhas na mão para fazerem o desafio.

A directora Teresa Maia explica que o jogo começou numa turma do 3.º ano, quando um rapaz de nove anos mostrou o novo desafio sobrenatural às colegas. “Assustaram-se muito e o aluno percebendo o que fizera ainda tentou acalma-las, mas não conseguiu”, conta. A directora foi obrigada a explicar-lhes que “não há bruxarias neste jogo, mas apenas a lei da Física em acção”. Apesar disso, uma das alunas não dormiu nessa noite.

Jogo pode ser usado para fazer bullying

O desafio que ganhou gás na internet em Maio e que tem sido notícia em reputados jornais internacionais tornou-se moda entre os adolescentes que se filmam a jogar e colocam os vídeos online. Basta uma rápida busca no YouTube para encontrar centenas de milhar de vídeos do desafio, uns em tom sério outros a ironizar com o fenómeno.

Na EB 2,3 Eugénio dos Santos, em Lisboa, Luís, de 14 anos, e os seus colegas da turma do 8.º ano também ficaram nervosos com o 'Charlie Charlie'. “O meu filho é um bocado sugestionável e contou que os amigos no Facebook diziam que o espírito os perseguia”, adianta ao SOL a mãe de Luís, adiantando que os estudantes se filmavam uns aos outros com o telemóvel durante o desafio.

O coordenador da Eugénio dos Santos, Carlos Costa, acabaria por impedir os estudantes de jogar na escola no final do mês passado: “Os funcionários alertaram-me que os alunos, sobretudo os do 6.º ano, andavam a fazer o jogo e estavam assustados”. Falou com os estudantes sobre estes receios e soube que “uma das raparigas do 6.º ano nem tinha dormido com medo”.

O presidente da Confederação das Associações de Pais não tem dúvidas: se o desafio causa alarme deve ser proibido nas escolas e a decisão explicada aos estudantes.

Além da ansiedade e nervosismo, Jorge Ascensão diz que este jogo pode ser aproveitado para fazer bullying entre os alunos. “Os estudantes podem usar este desafio para atormentar aqueles de quem não gostam e as escolas têm obrigação de estar muito atentas”, alerta.

Ninguém sabe ao certo como surgiu este desafio. Suspeita-se que possa ser uma nova versão do jogo latino americano las lapiceras, no qual também se tenta adivinhar o futuro. Mais recentemente surgiu a explicação de que faz parte da campanha publicitária do novo filme sobrenatural da Warner Bros The Gallows, que estreia em Julho nos EUA, onde um dos protagonistas é Charlie, um estudante que morreu numa peça de teatro.

Padres e Federação Espírita

O fenómeno está a preocupar a Igreja Católica em vários países, com padres em Espanha e Inglaterra a chamarem a atenção para os riscos destes jogos. Em Portugal, o padre exorcista Duarte Sousa Lara garante que o desafio é “perigoso” porque é uma sessão espírita infantil, o que, alerta, não deve ser praticado.

“Invocar espíritos é uma coisa séria, é brincar com o fogo porque se está a abrir a porta a possessões”, explica o sacerdote ao SOL, lembrando que a Igreja condena as práticas da magia e da adivinhação, em que se incluem o 'Charlie Charlie' e outros jogos semelhantes.

Aliás, Sousa Lara revela que várias pessoas já o procuraram para lhe pedir opinião sobre o jogo. E defende que a Igreja, nas missas e nas catequeses, tem de alertar os católicos para os riscos. Neste momento, conta, está a acompanhar 88 casos de exorcismo e “95% são vítimas de magia negra, sessões espíritas e cartas astrais”.

Também a Federação Espírita Portuguesa considera que as crianças e adolescentes não devem aderir a estas práticas. “Estão a lidar com situações desconhecidas para eles e que os podem perturbar, justifica o presidente do organismo Vítor Mora Féria, lembrando que há regras específicas da doutrina espírita para realizar estas sessões. “Toda a comunicação só deve ser feita na presença de alguém com conhecimento, com capacidade de mediunidade”, refere.

Para o psicólogo Bruno Pereira Gomes, se as crianças têm medo, os pais devem aconselha-los a parar de jogar. “É importante falar com as crianças e não subestimar os seus receios”, alerta o especialista do Instituto Português de Psicologia Infantil.

joana.f.costa@sol.pt