Opiniao

Europa já não disfarça horror à democracia

O ministro das Finanças de França, Michel Sapin, que tem sempre defendido um "financiamento seguro" para a Grécia, deu ontem uma entrevista à emissora francesa RTL, insistindo em que “o objetivo é alcançar um acordo antes do referendo, se possível”, mas não para impedir que este se realize, dado que essa é uma decisão dos gregos. Nessa entrevista, com grande repercussão em muitos meios de comunicação nacionais, diz mesmo querer o entendimento com as autoridades de Atenas, “mesmo que o ‘não’ vença no referendo”.

Sapin afirmou também que não tem sido a França nem a Alemanha a oporem-se a um acordo, assegurando que os ‘mais duros’ na negociação foram os países pequenos já sujeitos a resgates (suponho que ele se refere concretamente a Portugal e Espanha, e talvez à Irlanda). Fez-me isto lembrar uma criada que declarava sempre: “nunca sirvas a quem serviu”, por achar que estes últimos tinham uns complexos de inferioridade que os levavam a ser mais duros do que os ‘grandes senhores’. E Pasos a dizer que não?! E a sugestão de que a dureza vem do Leste, sendo os pequenos periféricos do Ocidente tão moderados (que nem Guindos já tem hipóteses de ir para o Eurogrupo)?!

Claro que podemos considerar hipócrita e posição de Sapin. Porque os pequenos (a começar pelo nosso Passos Coelho), tendo sido tão subservientes sempre, também o seriam agora, se os grandes os mandassem calar.

Temos visto Merkel e Hollande de facto preocupados com uma ruptura com a Grécia. Porque parecem ser os únicos a entenderem que aqui se joga, mais do que o futuro do euro, o futuro da UE e da estabilidade da região.

Como algum comentador escrevia ontem, os últimos dias tornaram o jogo perigoso. Nenhuma das partes, Grécia e credores, aceita apenas cedências. Querem a capitulação do oponente. Uma rendição que seja incondicional, e portanto mais difícil. O que interessam subserviências menores neste jogo?

Lagarde saiu a terreiro, mostrando os dentes do FMI no seu pior, e esclarecendo que alguma abertura (que por exemplo garantiu uma intervenção mais bonançosa no Brasil), do tempo de Strauss Kahn, já não está em vigor. E houve instituições europeias (com o Conselho da Europa à cabeça) que perderam a cabeça, e já não têm remoço em querem acabar com a democracia na Grécia, opondo-se ao referendo, ou por razões formais (prazos) ou substanciais (pergunta).

Esquecendo que na Grécia vigora uma democracia, que elegeu há pouco este Governo, e que o próprio Executivo está outra vez a pôr o seu futuro nas mãos dos gregos. Vá lá que foi tarde, mas a UE anunciou finalmente que iria esperar pelos resultados do referendo. E eu nem defendo referendos políticos (agora muito queridos das democracias, mas na realidade mais próprios das ditaduras) – mas realmente não sei outra maneira de se sair desta. Talvez seja preferível à insistência em receitas económicas tidas como únicas pelos serôdios ventos liberais na moda, mas com resultados opostos aos pretendidos (pensam os economistas de moda, como alguns jornalistas: não me venham com factos que desmintam as teorias).

Como é natural, o seu orgulho levá-los-á a votarem sempre contra as forças externas que querem ingerir. Mas estas não primam pela inteligência, como se tem visto, apesar das derrotas sucessivas.

Pelos vistos esta é a explicação de porque o actual presidente do Eurogrupo, um inominável holandês, apesar de não ter conseguido nada com Atenas (nunca se esperou nada do Eurogrupo – eu, pelo menos, nunca esperei –, concentrando-se as atenções apenas nos Conselhos Europeus – o que importa quando eles se reúnem, aos 18 contra 1, como disse radiante o nosso Passos, que não quer imaginar-se descolado dos 18!...), está a obter mais apoios para se manter em funções do que o espanhol Guindos (ao menos tem um nome pronunciável) para o substituir.