Politica

Ascenso Simões: ‘Se o Papa Francisco votasse em Portugal, votaria no PS’

O homem que vai dirigir a campanha de Costa rejeita responder a “casos” e puxa o PS ao centro. Ascenso Simões, director de campanha do PS, admite que o partido não está “formatado” para um candidato a Belém que não seja do partido.    

Miguel Silva

Como é o regresso ao Rato?

É uma sensação estranha. Não queria voltar à política activa, mas depois de ter respondido que estaria indisponível acabei por aceitar, por entender que o país e o PS tinham de contar com todos. É uma função exigente porque se trata de coordenar uma campanha que vai ser difícil. Com duas regras centrais: não gastar dinheiro em excesso e não fazer uma campanha de ‘casos’.

Teme o efeito do caso Sócrates?

Não vamos responder a isso com todos os casos que ocorreram nos partidos ao longo dos tempos. Seria, permita-me o termo, chafurdar em áreas em que não queremos entrar. Essas provocações não terão resposta do PS. Não queremos misturar os universos.

Também dirigiu a campanha em 2009. Agora, será mais difícil?

As campanhas vão sendo cada vez mais difíceis. As redes sociais e blogues criam novos públicos e obrigam a novas respostas com outras formas de democracia e participação. Temos um novo tempo de fazer política. Tudo é diferente: os intermediários do voto, a capacidade de conquistar as pessoas, a mobilização.

Escolheu Vangelis para anunciar no Facebook que seria director de campanha de Costa. O PS deve regressar à era Guterres?

O PS não deve regressar a tempo nenhum, não é um partido agarrado ao passado. O PS existe para apresentar novas soluções e está à frente na conquista de novos valores. De dez em dez anos, o PS é chamado ao governo. Em 1975, consolidámos a democracia; em 1985, a presença na União Europeia; em 1995, a afirmação da educação e a solidariedade como base da marca socialista; em 2005, olhámos para as infraestruturas, inovação e info-inclusão; e agora, em 2015, o que queremos é emprego.

As sondagens da Católica dão a coligação a apanhar o PS. Seguro é que tinha razão?

As sondagens não dão a coligação a apanhar o PS. O que dizem é que o eleitorado só dá um terço dos votos ao espaço dos partidos à direita. Quer dizer que dois terços não querem este Governo e, portanto, o PS tem um grande espaço de crescimento, que a coligação já não tem. O que está em causa é saber se os cidadãos se vão abster ou votar PS. Essa é a alternativa: saber se o PS consegue convencer os abstencionistas. E achamos que sim, que vamos ter um resultado muito superior à coligação.

O que ainda falta ao PS?

Falta a campanha! Não podemos ter, a 85 dias das eleições, tudo resolvido. A ideia de que as pessoas vão de férias com uma decisão tomada é errada. Recordo que fazemos uma eleição para primeiro-ministro e não há nenhuma sondagem que não dê mais dez pontos ao secretário-geral do PS quando confrontado com o actual primeiro-ministro.

Quando Costa partiu para a disputa da liderança justificou-o com o ‘resultado pequeno’ nas europeias. Seguro estaria hoje pior?

Não é possível refazermos a história. Houve primárias e mais de uma centena de milhar de pessoas responderam que o PS precisava de mudar o líder para estar melhor posicionado. Neste momento, estamos a fazer o caminho que essas pessoas determinaram.

Se o PS não tiver maioria deve coligar-se à esquerda ou à direita?

O PS não está na campanha a discutir cenários pós-Outubro. Está para conquistar os portugueses para uma mudança. Os cenários pós-eleitorais serão considerados na perspectiva de uma governação que negue o radicalismo austeritário e o radicalismo isolacionista.

Mas o PS tem de se posicionar ao centro ou à esquerda?

O discurso do PS tem de ser de esperança. O PS é um partido de esquerda que ocupa o espaço do socialismo democrático, da social-democracia e, agora, fruto da atitude dos partidos da coligação, ocupa também o espaço da democracia-cristã. Se o Papa Francisco votasse em Portugal, o único partido em que podia votar era no PS. Se olharmos para o espaço dos votantes portugueses, o PS ocupa todo o espaço central, porque os partidos da coligação radicalizaram o discurso para uma política de seguidismo que não correu bem e os partidos à esquerda são conservadores e estáticos à mudança do mundo. Os apoiantes de António Costa vêm de movimentos mais à esquerda, mas também de movimentos católicos. E vamos ter novidades a esse nível na construção das listas.

Que novidades?

Há um conjunto de critérios que determinam a forma de organização das listas nas distritais, de natureza territorial, integração, geracionais. Depois, o secretário-geral dará nota dos principais protagonistas que escolheu para compor o grupo parlamentar – que, além de poderem integrar o próximo governo, devem ser um grupo de valorização da actividade do deputado e do Parlamento. Queremos que os deputados tenham, já na próxima legislatura, uma nova vinculação à realidade eleitoral do seu círculo. Até porque temos uma reforma eleitoral que levará à criação de outro tipo de círculos e temos que preparar esse momento.

Costa tem de dar um sinal de distanciamento relativamente a Sócrates através das listas?

O PS não é um partido estalinista. Tem a sua história e teve sempre ao longo do tempo uma integração das suas principais sensibilidades. Agora, o PS também não é estático.

Nas listas, serão mais prejudicados os socráticos ou os seguristas?

Isso seria transformar o funcionamento do partido numa mercearia. O PS sempre teve capacidade de fazer listas que, no final do processo, foram aceites. Se me disser ‘Mas todas as pessoas vão ficar satisfeitas?’, aí vamos ver.

Ainda acha que Sócrates merece a medalha pelo desempenho como primeiro-ministro?

José Sócrates é meu amigo. E eu sofro a situação que ele vive. Espero que rapidamente possamos ter uma solução para o seu problema.

Chegou mesmo a escrever uma carta a Cavaco Silva a pedir a medalha...

Escrevi uma carta tendo em conta o enquadramento que na altura verifiquei. Era a situação mais adequada e espero que rapidamente se resolva o problema, para voltarmos a andar na rua os dois e para voltarmos a conversar sobre essa matéria.

Se for libertado na campanha, há algum plano de crise preparado?

O PS tem uma orientação definida pelo secretário-geral e sobre essa matéria não dizemos mais do que essa posição.

O que aconteceu para este volte-face no apoio a Sampaio da Nóvoa?

O PS não apoiou nenhum candidato até agora. Como sempre disse o secretário-geral, o PS tomaria a sua decisão na altura própria. Recordo que, em eleições anteriores, houve vários candidatos do universo socialista. As presidenciais são eleições em que os cidadãos apresentam as suas candidaturas e os partidos poderão apoiá-las ou não. Não estamos ainda nessa fase. Queremos apresentar uma alternativa credível nas legislativas e é isso que nos move até Outubro.

A candidatura de Nóvoa levantou muitos anticorpos no PS. Os partidos apelam aos independentes, mas depois não os aceitam. Porquê?

Os partidos aceitam tudo porque são democráticos e as democracias partem do princípio de que cada pessoa pensa pela sua cabeça. Querer fazer com que os partidos tenham uma só voz perante certas questões é uma visão antidemocrática. Pode haver pessoas que concordam e outras que não, e na altura própria, a direcção entenderá qual o sentimento global do partido e decidirá. Ninguém está impedido de apoiar outros candidatos.

Apoiará Nóvoa?

Neste momento, sou director de campanha do PS. Cumpre-me estar atrás e à frente de uma máquina para ganhar eleições e não me pronunciarei.

Nóvoa tem um perfil que o PS poderá apoiar, apesar das críticas?

O PS teve a sorte de ter grandes Presidentes da República. E esse é um problema para o PS. Temos o nosso foco em exemplos e, portanto, ainda não estamos completamente formatados para ter outro tipo de Presidente ou candidato de fora do universo interno e com outras perspectivas. Talvez Sampaio da Nóvoa, fruto de estarmos em campanha para as legislativas, não tenha ainda desenvolvido o seu pensamento em termos públicos para que o PS possa conhecê-lo melhor.

Jorge Sampaio e Mário Soares não ficam numa posição incómoda se o PS não apoiar Nóvoa?

Porquê? O PS ainda não decidiu e não se sabe se ficarão ou não numa posição incómoda. A verdade é que não ficou numa posição incómoda Manuel Alegre quando se candidatou contra Mário Soares. Temos de ter menos medo da democracia.

Maria de Belém seria uma boa candidata?

Sou amigo de Maria de Belém e nunca tive nenhuma conversa com ela sobre essa questão. Já soube coisas a meu respeito pelos jornais que nunca aconteceram...

Mas tem um perfil que se enquadra?

Se me pergunta se Maria de Belém é uma personalidade que importa à democracia portuguesa, que faz um bom lugar em qualquer sítio, direi que sim. Mas Maria de Belém ainda tem a dar ao país um conjunto de serviços que são igualmente relevantes e a podem realizar mais.

Concorda que o PS não apoie ninguém, como disse Carlos César?

O que Carlos César fez foi abrir todas as possibilidades. Não fechou, só juntou mais uma: apoiar o que já se conhece, apoiar outro candidato que venha do espaço do PS ou nenhum.

‘Para o PS interessa acabar o radicalismo’ 

Ascenso Simões diz que os socialistas europeus precisam de um reforço do Sul com António Costa. Critica a direita e recusa radicalismos.   

A situação da Grécia ainda pode ser boa para o PS?

O que está a acontecer na Grécia é mau para a Europa e para Portugal. A via do radicalismo não é a mais adequada. Nem o radicalismo austeritário, nem o que corta com a UE. Para o PS, o que interessa é que termine o radicalismo de um lado e de outro, que se encontre uma solução de compromisso e avancemos no sentido de uma Europa reforçada.

A direita ataca o PS com a Grécia. O PS pode sair prejudicado?

Não, porque os portugueses fazem uma apreciação do que aconteceu em Portugal, mesmo que estejam preocupados com a Grécia. Tivemos quatro anos em que a política seguida foi de empobrecimento, mais emigração, mais pobreza e impossibilitou uma solução de futuro. E é esta política que vai ser sufragada nas eleições. Os portugueses sabem que precisam de mudar o partido.

O discurso do medo não vai vingar?

Esse discurso do medo foi vencido a 25 de Abril de 1974. Porque quando apresentaram uma solução para a TSU que descia as contribuições dos patrões em detrimento dos trabalhadores, sem aumentar o emprego, as pessoas fizeram uma manifestação de 300 mil.

Costa criticou alguns socialistas europeus como Martin Schulz. Os socialistas podem fazer mais?

Quando falamos nas divergências entre partidos socialistas esquecemo-nos que os partidos à direita têm divergências mais profundas. Foi a incapacidade da direita grega que levou a que a Aurora Dourada tivesse mais apoio. O problema não está tanto nos socialistas, que sempre encontraram soluções depois das divergências. O problema é que a direita democrática hoje não existe a não ser debaixo de um propósito: os mercados.

A direita está a perder a sua matriz?

Os socialistas e democratas-cristãos construíram a UE. Os socialistas continuam empenhados na UE e os democratas-cristãos partiram-se entre conservadores, eurocépticos e até extrema-direita.

Mas os socialistas não podem fazer mais?

Os socialistas precisam de ter um reforço dos socialistas do Sul. É por isso que é importante termos um governo socialista em Portugal. Porque a Europa sempre andou mais rápido quando os socialistas estiveram em mais postos nos governos europeus.

Qual o peso que pode ter Costa, sendo Portugal um país pequeno?

Enquanto o Governo fechou o país, António Costa, como presidente de Câmara, abriu Lisboa. Com ele, Portugal teve uma voz nas instituições comunitárias. Já o primeiro-ministro foi à manifestação de Paris e ficou na terceira fila. Costa tem uma posição internacional e uma relação com diversos ministros da UE de há muito e garantiu capacidade de convencimento das posições portuguesas ao longo destes anos em que foi ministro e autarca.

sonia.cerdeira@sol.pt