Economia

Violas apoiam fusão do BPI com BCP

A família Violas, o maior e mais antigo accionista português do BPI, quebra o silêncio para manifestar o seu apoio ao cenário de criação de um super-banco ‘Millennium BPI’, desde que a independência dos gestores fique assegurada. “O nosso grupo apoiará o processo de consolidação, se existir criação de valor, se a instituição resultante for independente, com o mesmo perfil de risco e mais rentável” – revela Tiago Violas Ferreira, administrador da holding Violas Ferreira, em declarações ao SOL.

O histórico accionista do BPI pronuncia-se pela primeira vez. José Sérgio

O BPI está em silêncio há 129 dias sobre uma eventual fusão com o seu eterno rival BCP. O cenário de união entre dois dos maiores bancos nacionais foi proposto pelo segundo maior accionista do BPI, a Santoro de Isabel dos Santos, a 3 de Março, mas ficou em suspenso durante a oferta de compra dos catalães do CaixaBank. Entretanto, o maior accionista já desistiu de controlar o BPI há quase um mês e a equipa de Fernando Ulrich ainda não abriu a porta a uma aliança com o Millennium BCP.

O discurso do grupo Violas Ferreira surge assim alinhado com as intenções de Isabel dos Santos. A proposta de fusão surgiu, recorde-se, como a resposta da empresária angolana à oferta pública de aquisição (OPA) lançada pelo CaixaBank ao BPI, a 17 de Fevereiro.

Na ‘guerra’ entre angolanos e espanhóis, a família Violas manifestou-se desde o primeiro momento contra a oferta lançada pelos catalães. Entre outros argumentos, defendeu que o preço oferecido – 1,329 euros por acção – não reflectia o justo valor do BPI. Também a gestão de Artur Santos Silva e Fernando Ulrich rejeitou a oferta, considerando que, do seu ponto de vista, cada acção do banco vale pelo menos 2,04 euros.

“Os accionistas de referência tomam as suas decisões apoiados no valor estrutural de mais longo prazo e, consequentemente, não estão disponíveis para vender ao sabor dos movimentos conjunturais”, afirma Tiago Violas Ferreira.

Consolidação no sector

Questionado sobre se a desistência do CaixaBank cria condições para a administração do BPI avaliar a fusão com o BCP, o gestor é assertivo: “Com as perspectivas conjunturais da actividade bancária em Portugal para os próximos anos, e uma vez que todos os bancos domésticos necessitam de ganhar eficiência, o processo de consolidação vai naturalmente acontecer”. Ou seja, o processo de consolidação na banca nacional é inevitável.

Tiago Violas defende que uma fusão libertaria valor através de captação de sinergias entre os dois bancos. “É certo que o BPI necessita de tornar a actividade doméstica mais eficiente”. E explica: “Com a evolução tecnológica, por um lado, e a perspectiva de baixas margens financeiras prolongadas, por outro, cada recurso tem de produzir mais. Ou, visto de outra forma,  para o volume de negócios da actividade bancária portuguesa têm que ser afectos muito menos recursos do que são hoje”.

Também para Nuno Amado, presidente do Millennium BCP, “a proposta de fusão deve ser analisada porque vai no sentido da consolidação, tendência inevitável em Portugal e na Europa” – referiu em Maio.

BCP disponível desde Março

Ao contrário do conselho de administração do BPI, o BCPprecisou apenas de algumas horas para responder ao convite de Isabel dos Santos. Logo no dia 3 de Março, manifestou “a sua disponibilidade para analisar” a fusão, ressalvando que tal não pode ser entendido como garantia de que a operação se venha a efectuar ou como sinal de ter sido tomada qualquer decisão sobre a fusão.

Já Fernando Ulrich comentou o tema no final de Abril, mas apenas para justificar o silêncio da instituição que lidera: “A administração decidiu que vamos deixar que a OPA siga o seu caminho e chegue ao fim antes de avaliar outras operações. Penso que tem alguma lógica dar um passo de cada vez”.

A verdade é que os angolanos ganharam a batalha, a OPA dos espanhóis caiu prematuramente, todos os intervenientes estão em silêncio e o futuro do BPI continua incerto.

Para Tiago Violas, esta agitação não tem qualquer reflexo na actividade do banco: “No BPI, estas questões de accionistas não têm tido qualquer impacto relevante na gestão. Espero que se encontre um caminho harmonioso brevemente”.

Violas admite investir noutros bancos

A família Violas é um dos accionistas fundadores do BPI, através de Manuel Violas. Os seus descendentes acabaram, entretanto, por dividir os negócios, ficando Edgar Ferreira e Otília Violas com a posição no BPI.

Tiago Violas recorda essa ligação de longa data ao BPI e garante que a família não está vendedora do total de 28,6 milhões de acções que detém no BPI: “Enquanto acreditarmos na sustentabilidade do banco e da sua missão, por um lado, e o valor oferecido estiver abaixo da nossa avaliação, por outro, estamos mais compradores do que vendedores”.

A família aproveitou a oferta dos espanhóis para reforçar a sua posição no capital do BPI, de 1,96% para 2,52%, tornando-se um accionista qualificado (acima de 2%). O investimento custou ao grupo cerca de 10,7 milhões de euros (ver texto ao lado).

Para o grupo Violas Ferreira – ligado à Solverde Casinos e Hotéis e à Unicer –, o investimento na banca é estratégico e o BPI é o veículo escolhido. Ainda assim, não descarta a possibilidade de investir noutras instituições: “A presença na actividade bancária financeira portuguesa é estratégica e pretendemos que assim continue. Preferencialmente no BPI, mas também poderá ser de outra forma. Veremos”.

Como seria o Millennium BPI?

O sucesso de qualquer cenário no BPI precisará sempre do apoio do CaixaBank. Os espanhóis têm 44,1% do capital do banco, mas votam apenas com 20%. E já tinham sinalizado que não estão disponível para manter uma posição no capital a que não correspondesse o mesmo nível de direitos de voto. Aliás, foi precisamente por esta razão que desistiram da OPA. Ofim dos limites dos direitos de voto – condição de sucesso da oferta – foi rejeitada em assembleia-geral pelos accionistas. Os catalães decidiram então “iniciar uma fase de análise às alternativas estratégicas disponíveis em relação à sua participação no BPI”. A fusão com o BCP poderá ser uma dessas soluções.

Em apenas uma década, esta é terceira vez que a fusão entre os dois bancos está em cima da mesa. Paulo Teixeira Pinto surpreendeu, em 2006, com uma OPA de sete euros por acção. O BPI rejeitou e, em 2007, propôs uma fusão amigável que também não se concretizou.

Mesmo que desta vez a fusão avance, há questões de difícil entendimento. O preço do BPI e a obrigatoriedade de reduzir a exposição a Angola, onde os dois bancos têm actividade, são as maiores ameaças à negociação entre as administrações. Em último caso, e perante uma proposta formal de fusão, a decisão estará nas mãos dos accionistas e dos reguladores e sujeita a condições impostas pela concorrência, como a redução de balcões e de colaboradores.

O ‘Millennium BPI’ seria o maior banco português por activos presente em quatro geografias (Portugal, Angola, Moçambique e Polónia), seria líder no crédito e criaria a quarta maior cotada nacional. Os angolanos – Santoro/Isabel dos Santos e Interocêanico – seriam os maiores accionistas, com 21%, seguidos do CaixaBank, com 13,44%.

sandra.a.simoes@sol.pt