Economia

Crise chinesa ameaça fábrica da Autoeuropa

Se a turbulência financeira na bolsa chinesa resvalar para uma desaceleração económica do gigante asiático, a Autoeuropa será a empresa portuguesa com maior risco nos negócios com Pequim. A fábrica do grupo Volkswagen é o maior exportador do país para aquele mercado e nos primeiros meses do ano já registou quebras nas encomendas.

 

Segundo um ranking solicitado pelo SOL ao Instituto Nacional de Estatística, referente a 2014, a Autoeuropa lidera a lista das dez empresas com mais exportações para a China - que valem quase mil milhões de euros por ano.

O sector mineiro e várias empresas industriais também têm negócios com Pequim - as fábricas da Ikea em Paços de Ferreira exportam para aquele mercado - mas as vendas nacionais dependem em grande parte de veículos Volkswagen. As vendas de automóveis para a China são cerca de metade do total das exportações.

Perante a situação delicada que o mercado chinês tem vivido, as notícias do outro lado do globo são olhadas com preocupação por estas empresas. A bolsa chinesa tem vivido dias agitados, com muitos analistas a anteciparem um cenário semelhante ao da crise financeira do subprime nos Estados Unidos, há oito anos. Com quedas de cotações superiores a 40% nas bolsas, milhares de empresas foram forçadas a fechar as negociações dos títulos do mercado.

A Fosun, accionista da Fidelidade em Portugal, foi uma das empresas com maiores quedas em bolsa, mas o impacto directo em Portugal de uma crise asiática viria antes por via das exportações para o país.

O início do ano no mercado chinês já não correu tão bem como no passado à Autoeuropa. O mercado estava a ganhar preponderância nas exportações da unidade de Palmela - era quase tão importante como a Alemanha - mas as vendas para o país asiático sofreram uma quebra de 13,5% no primeiro semestre. A unidade de Palmela enviou menos 1.800 carros do que nos primeiros seis meses de 2014.

Dívida galopante

Apesar de a produção total ter aumentado, foi graças à melhoria de outros mercados que a unidade dirigida pelo português António Melo Pires conseguiu mais actividade. O SOL questionou a fábrica sobre o negócio no mercado chinês, mas não obteve resposta até ao fecho da edição.

Esta semana, Pequim anunciou novos dados sobre a evolução económica que não deixaram os analistas reconfortados. Embora o PIB tenha crescido 7% no primeiro semestre, acima das previsões, as preocupações quanto ao endividamento do país e a sustentabilidade da actividade económica vieram ao de cima.

Segundo a Bloomberg, os empréstimos contraídos pelas empresas e pelas famílias chinesas atingiram 207% do PIB do país - longe dos 125% registados há sete anos. A governadora da Reserva Federal Americana admitiu esta semana que o desempenho económico da China, a par da Grécia, está no topo das incertezas económicas a nível global. Janet Yellen frisou que o país asiático tem de enfrentar o «desafio» do elevado endividamento.

A China tem registado níveis impressionantes de crescimento, mas essa evolução esteve sustentada pelo que alguns analistas consideram ser uma bolha de crédito. E, além dos empréstimos oficiais, há anos que os economistas alertam para o que se designa de shadow banking - a concessão de crédito por intermediários financeiros que não são bancos e também não são alvo de supervisão. Há estimativas que o crédito concedido através destes mecanismos não oficiais represente um terço do crédito concedido no país.

Bolha de crédito

O vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa, Ilídio Serôdio, admite ao SOL que uma bolha de crédito de «grandes proporções» está em formação no país há alguns anos, mas confia na capacidade das autoridades de Pequim de conterem efeitos negativos do sobreaquecimento do crédito.

E adianta que não há ecos de problemas de maior nas empresas portuguesas a operar no país. «Não temos ainda conhecimento de dificuldades», garante.

Mais do que o impacto directo nas exportações portuguesas, uma eventual crise chinesa teria sobretudo efeitos em Portugal pela desaceleração que provocaria no comércio global da Europa.

joao.madeira@sol.pt

Exportadores para a china

Volkswagen Vende automóveis produzidos na Autoeuropa Almina

Almina - Explora as minas de Aljustrel e exporta metais como cobre e zinco

Caima - Actua na indústria do papel e vende para a China

Fisipe - Faz fibras sintéticas

Somincor - Explora a mina de Neves-Corvo e exporta sobretudo cobre e zinco

Lista de conquistas - Empresa unipessoal, actua no ramo das sucatas

Ikea - Cadeia sueca constrói móveis e vende para o mercado chinês

Continental Mabor- Actua na indústria dos pneus

Repsol polímeros - Fabrica plásticos que comercializa no país