Cultura

Milhões de riscos

É inevitável. Desde 2010 que a imagem de marca do Milhões de Festa, em Barcelos, é a piscina. Apesar de o tanque aquático ser só um dos quatro palcos do festival, a verdade é que o mesmo acabou por se tornar o ex-líbris do evento, que desde há dois anos vence a categoria de Melhor Pequeno Festival nos Portugal Festival Awards. “A piscina é só mais uma valência. O grande factor diferenciador é a programação”, salienta Joaquim Durães, da Lovers & Lollipops, que organiza até domingo o Milhões de Festa.

Na sua 8.ª edição - depois de um primeiro ano no Porto, outro em Braga, e, desde 2010, cinco em Barcelos -, o verbo chave do festival é ‘descobrir’, uma vez que até os melómanos mais bens informados desconhecem, por vezes, alguns dos artistas que compõe o cartaz. É isso mesmo que Durães define como mote do Milhões. “Não estamos concentrados em facilitar o cartaz para atrair mais gente, nem tão pouco em apostar no egocentrismo anglo-saxónico. Pelo contrário, o empenho é fazer uma programação desafiante e de risco, que proporciona às pessoas descobertas”.  

O egípcio Islam Chipsy (actua hoje de madrugada) ou os chilenos The Holydrug Couple (hoje, às 21h40) são apenas dois exemplos do propósito de que o director do Milhões fala. O primeiro é um dos nomes fortes do movimento electro chaabi que está a tomar de assalto as ruas do Cairo, usando a música de casamento egípcia como base da sua criação; e os segundos são uma dupla de pop rock psicadélico de Santiago, que cativa pelo registo dreamy da sua música. 

Mas não só de nomes marginais se faz o cartaz do Milhões de Festa. Também há veteranos por aqui, bem como estreias que têm recolhido a aprovação da crítica. O alemão Michael Rother, ex-membro dos precursores Kraftwerk, bem como os heróis da indie norte-americana Deerhoof ou a dupla de R&B e hip hop de Seattle THEESatisfaction são, certamente, alguns dos nomes mais esperados pelos cerca de três mil festivaleiros esperados por dia.  Um número que Joaquim Durães quer, naturalmente, ver crescer, mas sem qualquer ambição de ultrapassar nos próximos anos os quatro dígitos. “O recinto tem a capacidade para cinco mil pessoas por dia. Mais do que isso já se tornará desconfortável”, comenta o programador, salientando que mesmo que o Milhões de Festa continue a crescer nos próximos anos, o objectivo nunca passará por fazer dele “um festival para as massas”.

alexandra.ho@sol.pt