Desporto

Atletas especiais

“Trava a perna esquerda”, diz o treinador, antes de Filipe dar uma tacada na bola. No campo de Golfe do Complexo Desportivo do Jamor, além de Filipe Carmo, também Flávio, Fábio e António estão em concentração máxima. Este não é um treino habitual, que acompanhámos a três meses de seguirem para Los Angeles, onde participarão nos Jogos Mundiais do Special Olympics. Os jovens atletas aproveitam ao máximo os dias de estágio para apurar a técnica mas também para reforçar a confiança e o espírito de equipa.

São uns atletas especiais. Não vão aos Estados Unidos à procura de uma medalha a qualquer preço. No Special Olympics (SO), movimento desportivo internacional destinado a atletas com deficiência intelectual, a regra de ouro é o esforço máximo mas sempre respeitando as capacidades de cada um. Por isso, o sucesso não passa só por ganhar mas por conseguir dar o seu melhor.

A Tabu acompanhou ao longo dos últimos meses os treinos dos 49 atletas portugueses que partiram esta semana para a Califórnia e que vão representar Portugal neste encontro desportivo que decorre entre 25 de Julho e 2 de Agosto. Com idades entre os 15 e 50 anos, vão competir em nove modalidades: atletismo, basquetebol, futebol de 7, equitação, ginásticas artística e rítmica, golfe, natação e ténis de mesa, num encontro que contará com sete mil atletas e três mil treinadores, de 177 países, e onde se esperam 500 mil espectadores.

Filipe é “um caso de sucesso”, afirma Pedro Serra, director técnico do Special Olympics Portugal, explicando que o jovem, além de ser um “verdadeiro jogador de futebol”, começou também a praticar golfe há quatro anos. “Ultrapassava todos na técnica, mas não tinha a compreensão”, acrescenta, sublinhando, por um lado, as suas capacidades desportivas e por outro, as limitações cognitivas. Por exemplo: escolher o ferro adequado a cada tacada.

Com um défice cognitivo, Filipe, 21 anos, vem de uma família numerosa e sem grandes possibilidades financeiras. Apesar de ter feito recentemente uma formação profissional, que lhe poderia assegurar um posto de trabalho, é no desporto que aposta tudo. E este acaba por ser a sua ocupação principal.

Na modalidade de golfe, alguns atletas contam com um parceiro de jogo, com quem jogam à vez e partilham as bolas mais difíceis, pois ainda não atingiram o nível técnico necessário para jogarem sozinhos. Nas modalidades do Special Olympics, os treinadores têm de evitar a tentação de esperar altos resultados, e em vez disso, apostar na motivação e no desempenho dos seus atletas.

Nestas competições especiais, não são exigidos mínimos de participação e os atletas competem segundo um princípio de equidade e com base na aferição do seu nível de técnico. “A competição organiza-se por níveis de capacidade/habilidade em séries de três a oito atletas, em que cada série é uma final e todos os atletas vão ao pódio, sendo entregues medalhas de ouro, prata e bronze e de participação para os restantes”, explica Regina Mirandela da Costa, vice-presidente do Special Olympics Portugal.

Por isso, as diferenças em relação aos Paraolímpicos são enormes, sublinha a responsável que seguiu para Los Angeles para acompanhar as 70 pessoas que compõem a delegação portuguesa. Nos Paraolímpicos, as deficiências são motoras e visuais e os atletas treinam com a intensidade e regularidade da alta competição, competindo segundo mínimos em cada modalidade. No Special Olympics, muito além da componente física trabalha-se a dimensão social e a inclusão.

Paixão pelos cavalos

A mãe de Emanuel Andrade sabe isso melhor do que ninguém. Por isso, a ida do jovem de 24 anos para os Estados Unidos, para uma primeira experiência internacional, causa mais nervoso aos pais do que ao atleta com síndrome de Down (trissomia 21). Emanuel vai competir em cima de um cavalo, “paixão” que entrou na sua vida há oito anos, conta a mãe, num misto de orgulho e apreensão. “Sou um pouco mãe galinha”, confessa, durante um treino no Centro Hípico da Costa do Estoril. “Mas o estágio deu-me confiança. Conheceu os colegas, ficámos a saber como reage quando está fora. Digamos que se portou à altura”, diz satisfeita, corroborada de imediato pelo pai, que também veio assistir ao treino.

Emanuel não esconde o entusiasmo de “ir à América, conhecer outras pessoas, andar de avião!” Tudo novidades. Mas mais do que a oportunidade de participar em competições mundiais, os pais de Emanuel reconhecem que o trabalho desenvolvido na equitação através do Special Olympics tem sido uma forma de o filho “adquirir capacidades, devagar mas maduramente”. Hoje, diz a mãe, é um “homem responsável, cumpridor”. Tem ainda a “sorte” de estar integrado na Cercima, uma cooperativa de educação e reabilitação para cidadãos inadaptados, ressalva o casal. E de “ter uns pais com disponibilidade financeira e laboral que conseguem acompanhá-lo nos treinos e até nas competições”, acrescenta a mãe, lembrando as famílias que vivem com dificuldades e sem apoio do Estado. O jovem conta ainda com uma ajuda extra: a amiga que tem um cavalo e com quem treina semanalmente.

Injecção de auto-estima

Raquel encontrou nos resultados desportivos a auto-estima que nunca teve e, por arrasto, a integração entre os jovens da sua idade. “É outra pessoa desde que entrou no colégio e começou a praticar desporto”, sublinha Isabel Moreira, treinadora que a acompanha no Colégio Eduardo Claparéde, e com quem foi para os Jogos Mundiais. Há quatro anos, Raquel era uma menina que quase não falava, não interagia, faltava à escola e tinha um atraso global no desenvolvimento. Perante este contexto social, agravado por uma família incapaz de a acompanhar, saiu do ensino regular e foi para o ensino especial, onde o seu desenvolvimento deu um enorme salto.

Aí começou a praticar ginástica rítmica e atletismo e integrou o Special Olympics. Hoje, aos 13 anos, está muito mais autónoma e encara com entusiasmo a competição onde vai dar o seu melhor nos 100 metros de atletismo e salto em comprimento. “Vai ser tudo novo: estar num hotel, andar de avião, estar com atletas de outras nacionalidades”, diz Isabel, uma das treinadoras.

Ruben não será um estreante nesta competição internacional. Aos 22 anos conta já com participações nos Jogos Mundiais e Europeus e com um ritmo de treinos diários, aos quais se dedica de alma e coração. “O convívio é muito bom e divertimo-nos muito, embora seja difícil entendermo-nos pois cada um tem a sua maneira de ser”, afirma, partilhando a experiência com os colegas durante o estágio no Jamor.

A autonomia é um factor importante na hora de seleccionar os participantes nas provas internacionais. “Além da prestação desportiva, sólida e regular”, sublinha o director desportivo. Pedro Serra explica que cada país tem uma quota de atletas definida consoante o número de inscritos no movimento. Trabalhar com as famílias, acompanhar o desenvolvimento desportivo, mas também escolar e emocional dos atletas é, por isso, uma missão que vai muito para além do desporto. Mas que faz a diferença na vida de cada um, assegura Pedro Serra.

rita.carvalho@sol.pt