Cultura

A telenovela como bomba na guerra de audiências

Há muito que as televisões generalistas portuguesas seguem uma fórmula para o horário nobre: depois do longo telejornal, uma ou duas telenovelas portuguesas seguidas. Como consegue este produto ser um trunfo e prender a atenção de milhões de portugueses? Uma trama muito forte, que agarra o espectador e aposta na surpresa. 

Há 15 dias A Única Mulher da TVI começou a inverter o jogo e a ganhar de forma sistemática à concorrência (Mar Salgado, da SIC). Nestas duas semanas, a novela cuja acção decorre em Angola e Portugal foi por duas vezes ‘o programa mais visto da semana’. Na segunda e terça-feira passadas (dados recolhidos até ao fecho deste caderno), conseguiu novamente bater a concorrência. «No dia 21 tivemos 1 milhão e 448 mil espectadores, e em tempo de férias», nota Bruno Santos, director de programas da TVI.

Mas a luta entre Mar Salgado, onde Margarida Vila-Nova é protagonista, e A Única Mulher, que apresentou aos portugueses a modelo Ana Sofia, é intensa desde o início.

A TVI, jogando alto com a sua novela ‘luso-angolana’, estreou-a a um domingo (15 de Março). E, mesmo que as estações não revelem o que representa ganhar o prime time em termos de receitas de publicidade, o investimento na produção de telenovelas portuguesas é prova de que muito está em jogo. A resposta do público de Norte a Sul do país é exemplo disso: a novela é dos programas mais vistos pelos portugueses, ao mesmo nível do futebol e das galas de concursos de talentos.

Sem encher chouriços

«A Única Mulher fez um caminho muito difícil, arrancou quando o Mar Salgado já estava implantado. Mas não vamos cantar vitória», diz Bruno Santos, sobre a reviravolta na liderança televisiva. E acrescenta: «Isto é um caminho e um processo. A SIC terá de certeza os seus trunfos, e temos noção que Mar Salgado é um produto muito competitivo».

A guerra entre as duas novelas está longe do fim. Actualmente, o segredo neste produto não é só sobre o desfecho da acção (irá o galã ficar com a mocinha?). A própria data do final da novela é mantida em sigilo. Quanto caminho tem A Única Mulher para percorrer? «Ah, isso é informação classificada», ironiza Bruno Santos, sem adiantar a data prevista para o fim do programa que ainda está em gravação.

Quanto à explicação deste volte-face nas audiências, o director de programas entende que corresponde a um «momento muito forte da trama em que se sabe que o Norberto afinal está vivo e quem foi o violador da Francisca». O facto de tudo isto acontecer ao mesmo tempo só surpreenderá o espectador que deixou há muito de ver novelas. «Agora já não se enche chouriços. Em cada episódio há muita coisa a acontecer», explica.

Ao lado sóciocultural e romântico - típico da tradicional novela sul-americana - foi adicionado uma forte componente de thriller. Se antes o espectador voltava de umas férias ao estrangeiro e estava tudo mais ou menos na mesma, agora perde um episódio e já não apanha a história. «Os espectadores estão muito exigentes, têm acesso à própria Globo, estão habituados a ver muitas séries, e o patamar da ficção mudou muito», diz Bruno Santos.

A concorrência é vasta e intensa. E o zapping constante entre novelas para se ver onde estão mais ‘bombas’ a explodir faz com que os autores portugueses tenham desenvolvido uma escrita quase tão palpitante como a da série 24 ou da Guerra dos Tronos, onde o espectador, viciado em adrenalina, está sempre a ser surpreendido. Por isso, saber se Norberto afinal está vivo é algo que interessa a quase milhão e meio de portugueses.

Novelas no top

Pela segunda vez consecutiva, os três programas mais vistos da semana são telenovelas e a ordem é a mesma. Os dois primeiros lugares do pódio são para A Única Mulher, da TVI, e o terceiro para Mar Salgado, da SIC. Apesar de tudo, ao longo da semana Mar Salgado fez uma média superior, com 1 milhão e 368 mil espectadores, um sinal claro de que mesmo com batalhas ganhas dos dois lados a vitória é incerta.

De resto, característica do tempo de férias, o Canal Disney mantém-se na Liga das Televisões, roubando espaço aos canais informativos. E a categoria ‘Outros’ (formas alternativas de ver televisão em directo) continua a dominar o quarto lugar.

telma.miguel@sol.pt