Cultura

Com a cabeça no ar

Nem toda a gente tem a capacidade de ficar a pender a partir do tecto agarrado apenas a um pano. Menos gente ainda consegue subir e descer esse pano em exercícios coreográficos, e há uma percentagem menor que o faça sem parecer em esforço. Mas o que é ainda menos provável é que essa mesma pessoa consiga, além disso, representar e dizer palavras escritas por Strindberg, como acontece em Um Sonho, espectáculo em cena na Escola de Mulheres, Lisboa, até 2 de Agosto.

Livia Heinerich

“Fazer um texto de teatro clássico nesta vida sem tempo para palavras demoradas já é um enorme desafio. Acrescentar toda a questão corporal e vocal da utilização de aparelhos só aumenta a dificuldade do intérprete em fazer-se entender, quer a nível de texto, quer a nível de emoção”, explica Anaísa Raquel, criadora e encenadora do espectáculo, que começou por ser uma forma de apresentar o objectivo de um trabalho de mestrado - a união entre teatro e a dança aérea.

Os aparelhos de que aqui se fala são o já referido tecido vertical, o trapézio fixo, a rede acrobática e a escada de corda. E são eles que, ao acrescentar dificuldade, procuram também através da “leveza inerente aos aparelhos circenses atingir a leveza no texto que Strindberg procurava quando escreveu e que chegou a testemunhar no seu diário”.

Inês, essa protagonista que aqui vemos em tecido vertical quase a mergulhar sobre a humanidade ou a fugir para longe dela, existe no texto de Um Sonho como a filha de um Deus que desce à terra para perceber os homens. “Ele coloca-a numa posição que nenhum humano experimentou, um ser adulto e de um outro universo que pode viver a vida humana e, ainda assim, escolher ficar ou partir”.

A isto acrescenta-se ainda a leitura de Inferno, o outro texto de Strindberg que compõe o espectáculo, e que deu à encenadora a possibilidade de entrar “no universo de um artista que deambulou entre a lucidez e a falta dela”. Uma deambulação que aqui, mais uma vez, se dança a partir de cima, num trapézio fixo que procura acrescentar possibilidades artísticas a esta dupla exploração assumida daquilo que é a “experiência humana”.

Ainda que os aparelhos circenses sejam parte inquestionável desta construção dramatúrgica, a ideia é que comecem por perder o seu conceito de circo. “Quero acrescentar-lhes o conceito teatral. As personagens estão sentadas num trapézio como poderiam estar sentadas num cadeirão. Inês desce de um tecido vertical tal como poderia descer da escadaria de um castelo. A grande diferença é toda a magia e dinâmica conseguidas e que resultam da utilização do aparelho e da leveza que se pode adquirir com isso para uma personagem e, consequentemente, para o espectáculo”.

A tal noção de “dança aérea” com que Anaísa Raquel trabalha e que está na descrição do espectáculo permanecerá ainda enquanto objecto de estudo. “Ainda não sei se irei usar essa nomenclatura ou se acabarei por encontrar outra forma de descrever este género de teatro que pretendo desenvolver”. Nomes à parte, o que importa é que este Strindberg fique a pairar.