Opiniao

Estados de Alma

1.O triângulo de Mundell e as soberanias nacionais. O chamado triângulo de Mundell - do economista e prémio Nobel Robert Mundell - estabelece a incompatibilidade de três situações: livre circulação de capitais, taxas de câmbio fixas e controlo nacional da quantidade de moeda. Das três, uma terá sempre de ceder. Não se trata de um desvario neoliberal, um ‘constructo social’ ou uma conspiração alemã: como a gravidade, é um facto da vida. É, também, um resultado muito anterior ao euro mas que a moeda única europeia (um caso extremo de câmbios fixos) tornou ainda mais agudo: no fundo, como se um dos lados do triângulo tivesse colapsado. A incompatibilidade detectada foi de grande acuidade em Portugal no período pré-2002, é-o ainda para as economias europeias adjacentes à Zona Euro, e sê-lo-á para qualquer economia que deseje abandonar o euro. Sem controlo dos fluxos de capitais as economias terão sempre de escolher entre a estabilidade cambial (e, ultimamente, de preços) ou a soberania monetária. Tem razão a esquerda quando afirma que a liberdade de circulação do capital é a grande força centrípeta das opções de política nacionais, o travão às alternativas radicais, o inibidor das escolhas democráticas. A questão é se ainda podemos ou desejamos viver sem ela.

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2.Jeremy Corbyn. Nas décadas que leva como deputado do Labour Party, nunca encontrou uma causa radical cuja bandeira não tivesse empunhado. Por vezes esteve do lado certo da história, como quando se opôs a Tony Blair na guerra no Iraque. Outras vezes, esteve do lado errado (ainda que romântico), como quando defendeu o desarmamento unilateral do Reino Unido durante a Guerra Fria. É coerente, tendo-se divorciado por conta de disputas com a ex-mulher sobre a inscrição de um filho numa escola privada. É um socialista radical da velha guarda: amigo dos sindicatos, favorável a nacionalizações, defensor de mais despesa pública e opositor feroz da austeridade. Assim como que um misto de Alegre e Louçã.

Como as eleições para líder são abertas (bastando pagar três libras para poder votar), corre o risco de ser eleito, mesmo contra o establishment trabalhista (com Blair à cabeça), votado por ‘entristas’ de extrema-esquerda - reeditando uma velha e banida prática trotskista -, mas também por ‘entristas’ de direita - desejosos por devolver o Labour à condição de crónico perdedor nas eleições gerais. Se estes tiverem razão, como as sondagens sugerem, perde a democracia inglesa que bem necessita de uma oposição forte, clara mas credível.
 

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