Politica

Manuela Ferreira Leite: ‘Não vou dizer se voto na coligação ou não’

«Não há matriz social-democrata no programa da coligação». A análise de Manuela Ferreira Leite, na TVI24, foi arrasadora e deixou entrever o mundo de distância que há entre a social-democracia em que se coloca ideologicamente e as ideias de Passos e Portas para a próxima legislatura. Isso significa que a coligação Portugal à Frente (PàF) não vai merecer o seu voto? «É legítimo fazer a pergunta. Mas não quero responder», reagiu ao SOL.

 

Ao longo da legislatura, foram vários os momentos em que Ferreira Leite mostrou estar longe das opções de Passos Coelho - o líder que lhe sucedeu no PSD e cuja transição deixou marcas, depois de uma alegada ‘limpeza’ dos apoiantes de Manuela das listas que Passos levou a votos em 2011. Mas o programa eleitoral apresentado na semana passada pela coligação acabou por ser o momento em que Ferreira Leite deixou mais claro que já não se revê no partido que liderou. 

A «liberdade de escolha» que PSD e CDS defendem em áreas como a Saúde e a Educação, mas também o plafonamento na Segurança Social marcam a divergência ideológica. 

«A liberdade de escolha tem graça nos três ou quatro primeiros anos. Ao fim de 10 anos ficamos com uma qualidade de ensino no privado que é para alguns (os que podem pagar) e no público que é para os que menos podem», atacou, afirmando não conseguir «ser solidária» com este modelo que pode, em seu entender, acabar por se traduzir num Estado «assistencialista».

Críticas públicas, voto secreto

Fica por saber como se traduz no voto esta clivagem. Manuela não quer revelá-lo e não está sozinha na opção. Entre o lote dos comentadores do centro-direita que mais críticos têm sido de PSD e CDS, nenhum quer revelar o sentido do voto nas próximas legislativas. 

«Não vou responder», assume José Ribeiro e Castro, uma das vozes mais desalinhadas no CDS. José Pacheco Pereira e António Bagão Félix também deixaram sem resposta a pergunta do SOL sobre em quem votarão a 4 de Outubro depois de já terem assumido publicamente que não se revêem em muito do que é a política dos partidos que estiveram no Governo nesta legislatura.

Pacheco, o radical não faz tanta mossa como Manuela

Há um mês, Pacheco Pereira usava a crónica no Público para se referir a ele próprio e aos críticos da área política da coligação como os «estranhos companheiros de cama». Foi buscar a expressão a Shakespear para descrever pessoas como Bagão Félix e Manuela Ferreira Leite, mas também Freitas do Amaral, Adriano Moreira e Loureiro dos Santos : figuras que vieram da social-democracia e da democracia cristã mas que estão entre os mais duros nas críticas a PSD e CDS.

Pacheco explica o afastamento destes nomes com a «clara deslocação à direita» dos partidos da coligação que «levou à sua descaracterização».

Na crónica do Público, Pacheco Pereira falava numa «enorme raiva, impropérios, insinuações, acusações que transpiram do lado situacionista» de que são alvo estas figuras mais críticas da coligação. Quase um mês depois, foram espalhados pelas ruas de Lisboa e pelas redes sociais cartazes satíricos com a imagem do comentador com uma kalashnikov na mão e a frase «Pacheco a Presidente».

O autor dos cartazes permanece incógnito, mas Pacheco Pereira não deixou de lhe responder, indirectamente, na crónica de ontem, na Sábado. 

«Nunca me senti tão sozinho e nunca tive tanta certeza de estar tão certo», disse, citando Francisco Sá Carneiro, com a imagem dos cartazes em pano de fundo. «Se isto é ser, nos dias de hoje, radical, sou radical», assume, depois de um longo texto feito com citações do fundador do PSD sobre a matriz social-democrata do partido.

Fontes sociais-democratas contactadas pelo SOL rejeitam a ideia de que o partido possa estar por trás dos cartazes que brincam com o radicalismo do comentador da SIC Notícias. «Pacheco Pereira não aquece nem arrefece», garante um vice-presidente do PSD, admitindo que os ataques vindos de Ferreira Leite têm mais efeito no eleitorado do centro-direita do que os comentários de Pacheco Pereira, alguém que é já visto como muito distante do eleitorado da coligação e que será, por isso, mais ouvido por sectores mais à esquerda. «Faz muito mais mossa a Manuela do que o Pacheco», concorda outra fonte do partido.

margarida.davim@sol.pt