Desporto

Dérbi virado do avesso

Luisão fez 253 jogos às ordens de Jorge Jesus. Gaitán somou 216. E Jardel já ia em 125. Se há alguém que conhece os jogadores do Benfica é o novo treinador do Sporting, que este domingo, no Estádio Algarve (20h45, RTP 1), vai discutir a Supertaça com a equipa que orientou nas últimas seis temporadas.

 

Impõe-se a pergunta: pesará mais o conhecimento que Jesus tem dos seus ex-pupilos ou os segredos do treinador a que estes tiveram acesso? O SOL procurou respostas junto de António Simões, antiga glória do Benfica, Pedro Henriques, comentador da SportTV que passou por Benfica e FC Porto nos tempos de jogador, Paulo Sérgio, ex-treinador do Sporting, e Jorge Silvério, mestre em psicologia do Desporto.

Sustenta este último que, à partida, o facto de irem defrontar o antigo treinador será «mais um factor de motivação do que inibidor» para o desempenho dos jogadores da Luz. Apesar de ressalvar que «depende muito da personalidade de cada um», Silvério acredita que entre os habituais titulares da era Jesus no Benfica, e mais ainda nos que não jogavam com tanta frequência, acabará por sobressair «um desejo de afirmação perante o ex-técnico». E essa poderá ser uma arma para contrabalançar a «clara vantagem» que atribui ao Sporting pelo facto de Jesus ser ‘tu-cá-tu-lá’ com o plantel ‘encarnado’.

«Conheço-o melhor do que ninguém. Fui buscá-lo ao Alverca para o Belenenses», atirou o técnico em 2012, quando elogiava a evolução de André Almeida, sem se mostrar surpreendido. «Fui treinador dele no Braga. Conheço-o como as minhas mãos», declarou já em 2015 sobre Pizzi. 

O mesmo poderia dizer de muitos outros. Luisão trabalhou seis anos com ele, Gaitán e Jardel cinco, Ola John dois e meio, Fejsa e Sílvio dois, e Júlio César, Lisandro López, Eliseu, Samaris, Talisca e Jonas juntaram-se ao grupo na época passada.

O onze do Benfica para domingo será constituído com base nestes jogadores. O único reforço que Rui Vitória pondera lançar de início é o extremo marroquino Mehdi Carcela, que deixou boas indicações na pré-época. Os atributos de todos os outros possíveis titulares são mais fáceis de decifrar para Jesus do que para o seu sucessor na Luz, uma vez que Vitória leva pouco mais de um mês de trabalho. Pelo mesmo motivo, dá-se o caso de o agora técnico leonino conhecer melhor os jogadores do Benfica do que os seus novos pupilos.

«Não vai ser determinante, mas pode ter influência», atira António Simões, que considera que a Supertaça também começa empatada em matéria de conhecimento mútuo. «É sempre bom conhecer os conceitos do treinador adversário e os jogadores do Benfica sabem que o modelo de jogo de Jesus assenta em dois avançados e que toda a equipa se move em função deste ponto de partida», sublinha, acrescentando por outro lado que os ‘leões’ podem tirar  partido em acções individuais, pois Jesus «conhece o perfil dos jogadores do Benfica e passará informações que os do Sporting podem usar a seu favor».

Os adversários com maior propensão para errar no posicionamento defensivo nos lances de bola parada e as zonas a explorar em consequência disso, «as movimentações preferidas de jogadores como Talisca, Jonas ou Gaitán» ou o tipo de passes que alguns gostam de fazer são dicas que o técnico leonino poderá transmitir, exemplifica Pedro Henriques. 

«Jorge Jesus conhece como a palma da mão as virtudes e os defeitos dos jogadores adversários e condicionará melhor o jogo do Benfica», assinala o comentador da SportTV, para quem «é sempre melhor o treinador conhecer os adversários» do que estes saberem como ele trabalha: «Há muitos jogadores que não passam cartão a essas questões tácticas».

Se Pedro Henriques vê aqui «uma pequena vantagem teórica para o Sporting», Paulo Sérgio acredita que ela se esvanece não só pelo facto de Rui Vitória apresentar novas ideias para a equipa encarnada, mas também por conhecer bem o rival.

«É nosso trabalho estudar o adversário e a meu ver terá maior influência o que aconteceu na pré-época. O Sporting fez uma aposta forte e vive um momento de alguma euforia, enquanto o Benfica perdeu jogadores e o novo treinador, com um percurso brilhante até agora, terá de provar que também é capaz num clube de maiores ambições». 

No remate final, porém, o técnico que passou por Alvalade em 2010/11 lembra que «o clima mais positivo para o lado do Sporting» só dura até a bola começar a rolar. Depois, é futebol. E mais imprevisível do que o dérbi eterno não há.

rui.antunes@sol.pt