Crimes lá fora matam portugueses todos os meses

Ainda não eram sete da manhã quando Agostinho Sousa saiu de sua casa em Ironbound, o bairro mais português da cidade norte-americana de Newark. Antes de entrar no café Arcuense, de emigrantes de Arcos de Valdevez, onde ia quase todos os dias desde que ali vivia há quatro anos, foi morto a tiro. Tudo indica…

O assassinato, a 26 de Julho, chocou a comunidade portuguesa, que não se lembra de ter assistido a um homicídio de um compatriota no pacato bairro de Newark, onde vivem 13 mil emigrantes portugueses. E, neste momento, estão a criar equipas de vigilância de moradores para ajudar a Polícia. “Fizemos uma reunião comunitária e decidimos avançar com estes grupos de vigilância”, explicou ao SOL o luso-americano Augusto Amador, vereador da Câmara de Newark, responsável pelo bairro de Ironbound, acrescentando que desde que assumiu o cargo público há 17 anos nunca nenhum português tinha sido assassinado nas ruas daquela zona da cidade.

Cinco dias antes, também o português Manuel da Conceição Pinheiro, de 60 anos, foi morto a tiro quando, às seis da manhã, ia a caminho da sua padaria no centro de Caracas, na Venezuela. Em Junho, Maria da Glória Moreira tornou-se a primeira vítima portuguesa de um atentado do Estado Islâmico, numa praia da Tunísia e em Maio um português, de 48 anos, foi espancado até à morte no bairro de Luanda Sul, em Angola, durante um assalto. Também em Angola, em Abril, Paulo Santos, de 50 anos, não sobreviveu a um assalto numa bomba de gasolina.

Muitas destas mortes não são reportadas ao Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) português, mas nem por isso as estatísticas oficiais dos últimos quatro anos são menos impressionantes: todos os meses há portugueses assassinados pelo mundo. Segundo dados a que o SOL teve acesso, só aos consulados foram reportados 82 homicídios de cidadãos nacionais desde 2011 até ao final do mês passado. Isto, para além de muitos outros que o Governo desconhece. Aliás, o secretário de Estado das Comunidades reconhece que a verdadeira dimensão deste fenómeno escapa às estatísticas. “O número de portugueses que é vítima de homicídio será muito maior”, admite ao SOL José Cesário, lembrando que muitas situações não são reportadas aos consulados. Por um lado, porque as famílias não são obrigadas a fazê-lo. Por outro, porque quando se trata de luso-descendentes ou de portugueses com dupla nacionalidade, as autoridades locais registam a morte mas não a comunicam a Portugal. Os serviços consulares são sobretudo informados quando as famílias das vítimas de crimes precisam de algum tipo de apoio, como na obtenção de documentação ou na trasladação dos corpos.

Cinco vítimas na Venezuela desde Junho

Nas listas oficiais de vítimas de crime violento, a Venezuela bate recordes: foram pelo menos 35 os portugueses ali assassinados desde 2011, reportam os consulados. “Serão bem mais”, lamenta ao SOL Luís Jorge, conselheiro da comunidade portuguesa em Caracas, que está preocupado com a criminalidade no país, onde vivem quase 600 mil cidadãos nacionais.

Desde Junho, pelo menos cinco foram assassinados na Venezuela, o último há apenas 17 dias. Manuel da Conceição Pinheiro, um dos sócios da padaria portuguesa Lamedor Dely, mesmo no centro da capital, foi morto com quatro tiros de uma arma de 9mm por três homens que o seguiram de mota até à loja. Inicialmente as autoridades suspeitaram que o objectivo dos assassinos era roubar a carrinha Toyota 4R dourada que o comerciante da região de Aveiro, comprara 15 dias antes. Mas a investigação policial revela agora que foram desentendimentos profissionais que estiveram na origem do crime, estando detido um empregado do português, que vivia na Venezuela há mais de 30 anos.

O homicídio não chegou ao conhecimento do MNE, que em Julho foi contudo notificado da morte de um empresário português, em Carrizal, outra cidade venezuelana. O sócio da empresa Darpeca, Dani Moitalta, de 40 anos, não resistiu a dois tiros durante uma tentativa de sequestro. Nesse mesmo dia, e num outro município nos arredores de Caracas, era baleado mortalmente um comerciante da Madeira, Manuel Gouveia, quando um grupo de assaltantes tentou roubar-lhe a carrinha.

Já no mês anterior, José Luís Rodrigues, de 48 anos – um luso-descendente que se preparava para ir viver para Portugal com a mulher e os três filhos por estar cansado da violência no país – foi abatido num assalto quando se dirigia à embaixada portuguesa em Caracas.

Também terá sido esse o motivo do homicídio, dias antes, de outra portuguesa que vivia na Venezuelana há 50 anos e era dona do Hotel Dias y Silva na capital. Maria Elia Dias de Prieto, de 79 anos, foi estrangulada e esfaqueada a 6 de Junho, possivelmente por hóspedes. “Este é um país com altos índices de violência, mas os portugueses na Venezuela também estão mais expostos a crimes porque muitos dedicam-se ao comércio, sobretudo ao de bairro”, remata Luís Jorge.

Dois militares mortos no Brasil

No Brasil, outro dos países perigosos para os emigrantes, foram assassinados este ano dois antigos militares portugueses. O ex-oficial do exército Douglas Clemente Ferreira, de 32 anos, foi vítima de uma emboscada a 7 de Abril e o seu corpo encontrado queimado dias depois. O luso-brasileiro, que tinha regressado àquele país depois de ter servido durante dois anos no Exército português, foi executado com quatro tiros na cabeça por um polícia militar brasileiro que prometeu vender-lhe ouro, mas apenas o queria roubar.

Dois meses antes, a 26 de Fevereiro, um outro antigo militar foi mortalmente baleado. Henrique Barros de Santana, de 65 anos – que vivia em Santo Estevão, uma zona rural a 140 quilómetros de Salvador da Baía com a mulher brasileira e o filho deste segundo casamento – tentou travar um grupo de fugitivos que lhe tentou roubar o carro. Acabou por ser morto nessa noite dentro de casa.

A ensombrar as estatísticas estão também as mortes em países africanos, sobretudo em Angola, Moçambique e na África do Sul, onde dois irmãos portugueses foram assassinados numa emboscada perto da cidade de Durban, no final de Novembro passado.

Lisa Maria Pestana, de 42 anos, e Nelson Pestana, de 39, tinham acabado de fechar a sua loja num centro comercial em Ladysmith, a 240 quilómetros de Durban, e regressavam a casa de carro quando foram obrigados a parar na estrada, que estava bloqueada com pedras. Foram atingidos a tiro: Lisa morreu no local e o irmão dias mais tarde, a 1 de Dezembro, no hospital.

Mas mesmo quando as mortes violentas acontecem em países europeus, reconhece fonte do MNE, o Estado português não é alertado, como prevêem as regras da Convenção de Viena sobre relações consulares. O brutal assassinato em Milão de Pedro Horta, um jovem de 18 anos filho de um emigrante português, foi amplamente noticiado, mas nunca foi comunicado pelas autoridades italianas a Portugal.

Sequestros preocupam

Os sequestros no estrangeiro são um dos crimes que mais preocupam as autoridades nacionais, muitas vezes chamadas a intervir através dos consulados para apoiar as famílias na intermediação com os raptores ou junto das autoridades locais. Desde 2011, houve 36 casos oficialmente comunicados a Portugal em países como a Venezuela, Moçambique ou Angola. Um deles acabou em morte: No início deste ano, Rita Cristina Fernandes, uma portuguesa de 37 anos foi assassinada em Luanda quando os raptores não conseguiram obter o resgate, nem aceder às contas da multinacional petrolífera Subsea7 onde trabalhava. Mas há muitos sequestros nem chegam a ser noticiados. “Em Moçambique houve um jovem raptado em Maputo a 200 metros do consulado e até crianças que foram sequestradas a caminho da escola”, diz ao SOL fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

joana.f.costa@sol.pt