Politica

‘Se Passos me oferecesse uma tribuna, ia ao pontal’

Joana Amaral Dias é uma lutadora em preparação para subir ao ringue. “A política é dura. É como estar num ringue: se ao terceiro round te queixas porque partiste um dente, podes ir embora”. A cabeça-de-lista por Lisboa da coligação Agir (PTP, MAS e Agir) goza por estes dias férias em Santo André, litoral alentejano, com um grupo de amigas. Consegue desligar o botão, mesmo em véspera de eleições? “Até consigo, excepto quando me ligas”, dispara, deixando escapar uma gargalhada.

No litoral alentejano, Joana recupera forças para a campanha Miguel Silva

Em Lisboa, a máquina eleitoral continua ligada. Ultima-se o programa da coligação, que será apresentado na primeira semana de Setembro, e fecham-se as listas candidatas que serão entregues no Tribunal Constitucional. “A minha equipa protege-me um bocado porque sabe que estes quinze dias são importantes para o embate que aí vem”. 

O encontrocom o SOL decorre no café da praia: de costas para o mar e de frente para a lagoa, que é reserva natural. Joana, mesmo de férias, surge para o pôr-do-sol com a mesma imagem cuidada de sempre. Mais bronzeada, é certo.

“Nunca criei um boneco para a comunicação social. Nunca fiz spin, nem quero fazer. Seria uma treta”. E o cabelo disciplinadamente penteado, que se tornara imagem de marca? “É mérito das cabeleireiras”, revela. “É claro que faço uma  autogestão da minha imagem. Sempre fiz. Sou psicóloga. Há um ano publiquei um livro [O Cérebro da Política, Edições 70] que trata disso. Mas acho que as pessoas estão fartas de gestos estudados e de políticos de plástico”, diz, arrumando o tema. 

Pregar só para os convertidos?

A conversa prossegue. Joana pede uma água sem gás, fresca, com uma rodela de limão. “Quem não bebe álcool tem mania de inventar estas coisas”. Diz-nos que quer falar sobre política e avisa que pouco ou nada dirá sobre a sua vida privada. Vamos então à política.

“É preciso refundar a democracia”, sublinha, para acrescentar que as legislativas de 4 de Outubro serão as mais importantes desde o 25 de Abril de 1974. A psicóloga candidata-se a uma função pública que já desempenhou pelo BE, em 2002: integrou então as listas dos bloquistas como independente. Hoje, tem dúvidas de que a adesão formal ao partido – já depois do mandato como deputada – tenha sido a melhor decisão, mas recusa falar em arrependimento. “Se calhar não teria valido a pena aderir como militante ao BE. Os partidos tratam bem os independentes mas depois tendem a banalizá-los”.

Entre o afastamento da Mesa Nacional do BE, em 2009, e o momento (no ano passado) em que surge associada a um novo projecto político – o Juntos Podemos, onde veio a bater com a porta –, a ex-deputada confessa que passou por um período de “quase luto”.

Agora, o momento – depois de fundado o Agir no início do ano – é para ganhar balanço para uma disputa eleitoral em que, pela primeira vez, Joana Amaral Dias é o nome mais mediático das listas. E também para uma auto-análise. “Não há nada de contraditório no plano ideológico do meu percurso”. E para quem a acusa de querer protagonismo? “És tu que me acusas? Faço política há 15 anos. Militei num único partido. Se me convidam para intervir, para escrever, aceito”.

Foi com essa postura que acedeu ao convite de António José Seguro, ex-líder do PS, para discursar na Convenção Novo Rumo, em Maio do ano passado, numa colaboração que chegou a ser lida como uma aproximação ao PS, depois do apoio à candidatura presidencial de Mário Soares em 2006. “Se Passos Coelho me desse uma tribuna na festa do Pontal, sem qualquer condicionalismo, como fez Seguro, podes ter a certeza que aceitava. Haveria de recusar por que carga de água? Só devo falar para os convertidos? Ou os militantes do PSD ou do PS têm lepra?”.

O caminho das pedras ou um cargo público?

Já a conversa ia a meio, o fotógrafo tenta a melhor foto. Joana havia de dar uma ajuda: “O meu ângulo direito não me favorece. Na televisão peço sempre para ficar do lado esquerdo”.

A propósito: esta semana ficou com a certeza de que não irá debater com Pedro Passos Coelho ou com António Costa na televisão. “Achámos que não é democrático e que não deveria ser aceitável numa democracia”. Mas outras acções directas de campanha serão criadas para manter a atenção mediática e chegar aos eleitores. “A campanha do ‘Vendido’   [contra as privatizações]  teve um impacto enorme, que consideramos justo. E não custou mais do que 50 euros. Andei a pintar faixas. Somos o  Agir, não somos os chorões”.

Joana Amaral Dias é uma self made woman da política portuguesa, com uma imagem forte e quase auto-suficiente. Mas recusa olhar para si como alguém que aspira aos corredores do poder. “A minha presença na esfera pública é por mérito próprio. Não tive padrinhos nem protecção de nenhum partido político”. Não se recorda da última vez que esteve com Francisco Louçã, de quem era próxima. “Na actividade política não há egos amachucados ou feridos”.

Em Lisboa, onde irá concentrar a sua campanha, vai reencontrar Mariana Mortágua, número um do BE, e Ana Drago, número dois da candidatura Livre/Tempo de Avançar. “Será natural. Elas estão muito bem estabelecidas, transparentes como água”.

O que move Joana Amaral Dias? O poder? A resposta é dada em duas partes. Primeira: “Quero exercer o meu mandato em exclusividade. Fazer política é ser empregado do povo que queres servir”. Segunda: “A minha ambição é fazer este caminho: o das pedras, de poder lançar novas ideias, novas formas de intervir e de fazer política”. Mais do que ser ministra? “Muito mais do que ser ministra”.

ricardo.rego@sol.pt