Opiniao

O euro e as divergências económicas

Em vez de levar à convergência económica entre os países aderentes, afinal o euro acentuou as divergências - uma crítica que se repete. É verdade, mas não se pode dizer que seja uma surpresa.

 

Já aqui falei do facto, que persiste e até se acentua, de a unificação da Itália ter agravado, e não reduzido, o fosso entre o Norte desenvolvido e o Sul pobre, apesar dos milhões que o Estado italiano e a UE têm encaminhado para o Mezzogiorno. O que, aliás, suscita a indignação de muitos italianos do Norte, onde um partido reclama separar-se do Sul, criando um novo país, a Padania.

A explicação para o fosso é simples: os trabalhadores mais dinâmicos do Sul emigram para o Norte, onde encontram mais e melhores empregos; e os capitalistas do Sul preferem investir no Norte, onde há mais favoráveis oportunidades de negócio. 

Disparidades de riqueza e crescimento económico acontecem em muitos outros países. Berlim tem gasto uma fortuna em apoios à antiga Alemanha de Leste, sem que, 25 anos passados após a reunificação alemã, os territórios da ex-RDA hajam atingido o mesmo nível de vida do Ocidente do país. 

Aqui jogam também factores específicos: a mentalidade avessa ao risco empresarial que dominou durante quatro décadas a Alemanha comunista; e o facto de, por motivos políticos, Helmut Kohl ter aceite que o marco de Leste valeria o mesmo do que o marco da Alemanha Ocidental. Um câmbio excessivamente alto, que levou as empresas de Leste a perderem a pouca competitividade que tinham.

Em Espanha, a Andaluzia partilha a mesma moeda com a Catalunha (primeiro a peseta, agora o euro), mas continua, desde há séculos, muito menos próspera.

Fora do euro, vemos que a Escócia, integrada no Reino Unido há três séculos e com a mesma moeda da Inglaterra, a libra, tem um nível de vida inferior ao do Sul da Inglaterra, apesar dos subsídios do Estado central.

Nos Estados Unidos, um país independente desde 1776, o Estado do Mississippi continua hoje a ter uma riqueza per capita que é quase metade da registada nos Estados da costa Leste, como Nova York, Connecticut ou Massachusetts.

De resto, não é preciso de sair de Portugal para detectar a crescente diferença de progresso económico entre o litoral (de Viana do Castelo a Setúbal) e o interior, por muito que se fale em combater essa diferença. De facto, é difícil contrariar a tendência natural de as pessoas e a riqueza se concentrarem em zonas mais urbanizadas. Isto acontece apesar das auto-estradas que entretanto (e com algum exagero) cobriram o interior - é que elas servem sobretudo para os habitantes do litoral irem visitar ou passar férias nas suas terras de origem.

Não se deve, assim, esperar da moeda única europeia que ela promova a convergência económica. Tem muitas outras vantagens, mas não esta. 

Também há falhas na arquitectura do euro, que a crise grega pôs à vista. Falta-lhe um orçamento comum de dimensão significativa, uma real coordenação de políticas económicas, que não se limite aos controles orçamentais exigidos pela Alemanha, etc. Tudo coisas que requerem mais união política, quando o vento que hoje sopra na Europa vai em sentido contrário. O Mecanismo Europeu de Estabilidade e o início da união bancária são passos positivos, mas não chegam. Só que não existem condições políticas para ir mais longe.