Opiniao

Trump e Corbyn: duas faces da mesma moeda?

1.Não percamos a Alemanha. Marcel Fratzscher é um economista moderado e europeísta que preside ao prestigiado think tank alemão DIW. Publicou no Financial Times do passado dia 28 um importante artigo que passou muito despercebido. O ponto é que, na voragem do Grexit e da discussão sobre os atropelos às escolhas democráticas nacionais, esquecemos a Alemanha e o receios do seu povo. Marcel Fratzscher chama a atenção para três medos que afastam progressivamente os alemães do projecto europeu: o de que a Zona Euro se transforme numa união de transferências orçamentais com a Alemanha como principal financiador; o de que as regras europeias acordadas por todos estejam a ser ultrapassadas com demasiada ligeireza, na primeira dificuldade do caminho; e, finalmente, que à crescente erosão das soberanias nacionais não corresponda uma maior estabilidade ou prosperidade. A resposta, segundo Fratzscher, é a criação de um verdadeira união fiscal, encimada por um ministro da finanças poderoso e responsável perante um reforçado Parlamento Europeu com uma câmara especial para assuntos relacionado com o euro.

2.E o outro lado do canal? O Ministro das Finanças do Reino Unido, George Osborne, numa entrevista ao Telegraph, articulou o eurocepticismo moderado do liberalismo Tory: quer que o Grã-Bretanha regresse a um relação tipo mercado único com a União Europeia. Nas palavras do provável sucessor de Cameron: «Sempre achei que a atracção primeira da participação na UE era a económica», a de uma grande área de comércio livre. Não esclareceu, todavia, se esta relação de mercado único que ambiciona inclui serviços e, acima de tudo, pessoas.

3.De Corbyn a Trump. Emergem como géiseres num cenário lunar: Corbyn, Farage, Sturgeon, Iglesias, Tsipras, Le Pen ou Trump. Não são a ‘anti-política’. Pelo contrário, são uma manifestação da vida política a procurar os caminhos possíveis por ente as brechas do edifício tecnocrático, consensual e maçador em que se tornou a governação nas democracias ocidentais. Claro que todos habitam um mundo de faz-de-conta em que slogans são soluções, o dinheiro cai do céu e o Estado pode resolver todos problemas. Claro, como Grécia mostra, que seria uma tragédia se alguma vez alcançassem o poder. Mas são uma interpelação a que o centro político, táctico e oportunista, que renega ideologias e foge de compromissos de futuro como o diabo da cruz, deve responder.