Cultura

Uma vida em Marte com David Bowie

A ascensão da personagem Ziggy Stardust, do glam rock, e da ambiguidade de género. Mick Rock, mais conhecido como ‘The Man Who Shot the Seventies’, revela a criação do músico britânico em fotografias para a posteridade, compiladas pela Taschen numa edição de luxo, disponível a partir de Setembro.

O almoço sobre carris é apenas um dos momentos mais famosos a despertar a fome dos fãs. Em 1973, David Bowie e Mick Ronson têm 26 anos quando dividem a mesa a bordo de um comboio, numa viagem entre Londres e Aberdeen. Mick Rock, que registou a imagem para a posteridade, é o homem que embarcou na carruagem do rock com a sua máquina fotográfica. Muitos outros instantes únicos se juntam ao arquivo do britânico, que capturou a face mais subversiva do panorama musical no começo de uma década glam, e que assinou as capas de álbuns emblemáticos como Transformer, de Lou Reed, e Queen II, dos Queen. Mas é lado a lado com o camaleão Bowie, então Ziggy Stardust, que os cliques mais se fizeram ouvir. 

«Costumava definir-se como uma máquina Xerox. Recolhia impressões de todos os lados. Importou uma série de elementos: a cena Andy Warhol, os Velvet Undergound, Jacques Brel, Kabuki, A Laranja Mecânica, a onda futurista do espaço». É a descrição que Rock faz de Bowie, em entrevista a Barney Hoskyns, recordando o primeiro contacto com a figura que deu voz a ‘Starman’.

Mick trabalhava no estúdio de revelação da revista Oz, abrigo de uma série de discos promo, incluindo Hunky Dory. Levou-o para casa e ouviu-o até à exaustão, em especial ‘Life on Mars’. À época, o rapaz saído de Cambridge assinava alguns textos para a Rolling Stone, que ilustrava com as suas fotos. «Quando David disse: ‘tanto dou para um lado como para outro’, as pessoas prestaram atenção. Falei com o editor em Londres da revista, o Andrew Bailey, e sugeri: ‘porque não o Bowie?’. ‘Sim, pode ser, tem andado a dizer umas coisas  interessantes’, respondeu». Seguiu-se um encontro na estação de Liverpool Street com Anya Wilson, a agente de David, que o levou a um concerto em Birmingham. Conduzido ao backstage, apresentado à estrela, Rock pôde tirar as primeiras fotos desta série. «Dois dias depois fui à sua casa em Beckenham e entrevistei-o».

Quatro décadas volvidas, olha com reticências para o actual cenário da música, como confessava ao The Guardian em 2014, por ocasião da mostra de fotos icónicas que rubricou. Fenómenos como Miley Cyrus e Lady Gaga são para Rock mais produtos visuais que criatividade musical. «Antes de tirarmos uma fotografia, reclinávamo-nos, acendíamos um charro e escutávamos a música. Agora a canção é um mero acompanhamento das imagens», censura Mick, que poderia ter sido um «escritor ou palestrante» se um dia não tivesse pegado na sua máquina e encontrado o empurrão que faltava nas propriedades do LSD. A receita bastou para assistir ao nascimento de uma lenda, revelada na obra The Rise of David Bowie - 1972-1973, disponível para pré-encomenda no site da Taschen, a poucas semanas da chegada ao mercado, agendada para Setembro.

Corria o ano de 1972 quando Bowie lançou o álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, um marco na discografia do músico, então feito personagem ambígua, que confundiu os géneros e as fronteiras entre realidade e ficção. Rock associou-se ao círculo pessoal e artístico do londrino e seguiu de perto a meteórica chegada ao topo, tornando-se o seu fotógrafo oficial.

O resultado da parceria reflecte-se nesta edição numerada, limitada a 1.772 cópias, assinadas por David Bowie e por Mick Rock, que compila o melhor do portfólio de músico e fotógrafo, com direito a imagens de actuações ao vivo, recortes dos bastidores, produções para a imprensa, instantes de vídeos promocionais, e ainda uma mão-cheia de fotos inéditas, que oferecem um acesso privilegiado ao mundo da celebridade. Além da versão coleccionador, situada nos 500 euros, o álbum está ainda acessível em duas edições artísticas, com o preço a atingir os 1.250 euros, fruto de uma impressão especial para estas 310 páginas de culto.

maria.r.silva@sol.pt