Opiniao

Silly season em alentejano

A época tola está aí. Também podia ser silly season, mas o Alentejo não fala estrangeiro. Aliás, as ementas nos restaurantes raramente estão traduzidas e a malta entende-se à boa e velha maneira: gesticulando muito, falando alto ou apontando e mostrando o petisco confeccionado ou por confeccionar. E o mesmo se aplica ao resto da conversação.

No mês de Agosto, uma grossa fatia de veraneantes avança Alentejo adentro, ao mesmo tempo que quem cá vive diz ‘olá’ a uma alegre multidão - e se despede de dias mais calmos.

Tal como a maior parte dos portugueses, eu também esperei o ano inteiro por este momento. Mas quem faz aqui do turismo profissão, embora não consiga deixar de sentir estes meses também como férias, acaba por ter micro férias intercaladas com dias de muito trabalho. 

Por que é que havemos de resistir ao chamamento do Verão e não aproveitar o pôr-do-sol tardio, a cerveja ou o copo de vinho ao final da tarde, as jantaradas até às tantas ao ar livre, os concertos e os amigos que estando de férias nos vêm visitar? 

Mas a verdade é que acaba por ser uma correria - e já chegamos ao mês de Agosto a desejar dias menos cheios, mais silenciosos e descomplicados. O Verão quer-se simples e eu, que nunca fui adepta do campismo selvagem e tenho pavor de muita natureza junta, dou por mim com vontades até então desconhecidas e que incluem, para espanto de quem me conhece, tendas e autocaravanas, noites estreladas sem sinal das luzes da civilização, o silêncio quebrado pelo canto das cigarras, pelo vento nas folhas das árvores, pelas ondas do mar a baterem com força na areia. 

Quero esquecer-me de que a água do mar deixa a pele e o cabelo secos, e que as calças de ganga existem. Hoje, parece-me quase impossível que no meu primeiro Verão no Alentejo tenha sentido tanto a falta da praia do Estoril, com o seu areal apinhado de gente. Agora prefiro as praias com o mar mais agitado às praias de águas mais calmas, preferidas pela multidão de férias.

Há muitos anos, no Algarve do final dos anos 80, tive a sorte e o privilégio de conhecer uma pessoa que saía de casa para a praia munida da tesoura do frango. E, com ela, desbravava o seu próprio caminho para o areal semideserto através da vegetação. O Renault 4, qual tanque de guerra, galgava os caminhos de terra batida e areia. O objectivo não era outro senão gozar umas horas de paz e sossego na companhia da família e longe da confusão que, por aqueles dias, parecia concentrar-se toda mais a Sul.   

Mas hoje, mesmo na costa alentejana que tem uma extensão de cerca 90 quilómetros, a maior parte das pessoas preferirá amontoar-se ao redor de um qualquer bar de praia e ficar sujeita ao mesmo tipo de confusão da qual foge. E, às vezes, a distância entre toalhas é tão diminuta que quem estiver de fora pode pensar que a malta ali tão juntinha partilha o conteúdo das lancheiras.

Estou em crer que é uma coisa muito portuguesa esta de nos amontoarmos. Conversando com um amigo a viver há muitos anos em Inglaterra, chegámos ambos à conclusão de que, numa carruagem do Metro de Londres, dois ingleses sentar-se-ão um em cada ponta - enquanto no Metro de Lisboa dois portugueses vão sentar-se ao lado um do outro.

Eu gosto de conversar com as pessoas, mas tanta proximidade, assim de repente, também é demais.