Economia

As pressões políticas no arrendamento

A diferença entre habitar uma casa arrendada e uma adquirida reflecte-se também no futuro. Quem compra com crédito à habitação acaba por pagar uma mensalidade mais baixa do que uma casa arrendada e, quando chegar à reforma, pode ter a habitação totalmente amortizada e não ter de usar a pensão para pagar rendas. Na opinião de Miguel Poisson, director-geral da ERA Portugal, esta é uma das razões que levam muitos portugueses a optarem pela compra.

Miguel Poisson, director-geral da ERA Portugal

O responsável garante mesmo que houve várias tentativas políticas de impor aos portugueses o arrendamento, sendo que este não é, efectivamente, mais vantajoso do ponto de vista financeiro. “Indirectamente, o FMI, o BCE e a Comissão Europeia tentaram fazê-lo, forçando a banca a restringir o acesso ao crédito. O resultado foi um aumento forçado do arrendamento – mesmo assim abaixo do previsto –, mas mal o crédito aumentou, muitas pessoas voltaram a comprar”, disse ao SOL.

Há uma questão cultural de posse de casa (muito enraizada nos países da Europa do Sul), mas há também razões financeiras. Mesmo se incluirmos os custos de IMI, condomínio, manutenção, etc, compensa. Há também a segurança de poder chegar à reforma com uma casa paga.

O director-geral da ERA afirma também que os arrendamentos são caros e, quando comparados com as prestações de crédito à habitação, mais clara fica a melhor opção, mesmo tendo em conta um aumento futuro da Euribor.

Nem tudo são rebuçados

Apesar de o crédito à habitação ter aumentado 52% nos 5 primeiros meses do ano face ao período homólogo, ainda existem alguns obstáculos para a compra de casa. Miguel Poisson destaca “o acesso ao financiamento” que, apesar de ter melhorado, “ainda integra, na tomada de decisão dos bancos, a difícil situação que enfrentaram devido aos exageros cometidos no passado”.

Do 80 ao 8 antes de chegar ao equilíbrio

O responsável lembra que durante a crise os bancos “passaram do 80 para o 8” e, salvo raras excepções, “bloquearam aos portugueses o acesso ao crédito”. Agora acredita-se que os bancos caminham para uma situação mais equilibrada e sensata, até porque a sua rentabilidade dependerá sempre de crédito à habitação saudável e criterioso.

Também o desemprego no nosso país, na sua opinião, continua a ser um travão ao crescimento da economia em geral. À medida que o desemprego for baixando, o poder de compra aumenta e as transacções imobiliárias crescem.

Contraponto à situação difícil do mercado imobiliário em Portugal tem sido a entrada no investimento estrangeiro. No caso da ERA Portugal é responsável por 20% do negócio da rede. Os ingleses e franceses mantêm-se na liderança, com um aumento muito significativo de reformados franceses no último ano. “A tributação em França é muito elevada e a insegurança no Magrebe fez com que Portugal passasse a ser o ‘paraíso fiscal’ dos reformados, ainda por cima um paraíso de pessoas hospitaleiras”, adiantou Miguel Poisson. Contudo, refere que é necessário investir mais continuar o esforço da promoção de Portugal no exterior.

O responsável da ERA lembra ainda que a mediação imobiliária evoluiu bastante nos últimos anos. Na sua opinião, mostraram o lado menos mau da crise, em que só os profissionais mais preparados e empenhados são capazes de levar o seu barco a bom porto. “Este sector desenvolveu-se muitíssimo e, na minha opinião, evoluirá para uma ultra-especialização, em que o mercado deixará de ter espaço para os ‘generalistas’”, assegura.

piedadepedro@gmail.com