Economia

Guerra de tronos no Montepio

Os dias agitados que o Montepio tem vivido marcaram o regresso à ribalta de uma figura que há anos agitou a Maçonaria e a Justiça em Portugal: José Braga Gonçalves, o protagonista do caso Moderna. É o advogado que representa investidores e clientes do Montepio e tem sido uma peça fundamental na oposição a Tomás Correia e aos novos corpos sociais da caixa económica, encabeçados por Félix Morgado. 

Há quem o aponte como dinamizador de uma tendência para concorrer às eleições deste ano para a associação mutualista, mas o próprio minimiza a sua intervenção: “O meu interesse é estritamente jurídico. Tenho clientes que se consideram enganados. Não tenho qualquer interesse pessoal”.

A gestão de Tomás Correia enfrenta a oposição de vários grupos e tendências dentro da instituição. O Montepio divide-se entre uma associação mutualista com 650 mil associados, que funciona como uma holding, e a caixa económica - que actua como um banco. Em ambos os casos, os órgãos sociais são alvo de contestação interna.

Quando o caso Montepio saltou para as primeiras páginas dos jornais, depois de o governador do Banco de Portugal ter revelado no Parlamento que estava em curso uma auditoria forense às práticas de crédito da instituição, Braga Gonçalves ganhou protagonismo interno: “Se calhar sou o advogado que mais tem enfrentado o Montepio - de alguma forma estão concentrados em mim uma série de clientes com problemas graves”, admite  ao sol.

O ‘animador’

Tem reuniões com a administração para defender os interesses dos que representa, é crítico dos órgãos sociais e nos seus contactos dentro do banco há intersecções com outros  nomes ligados à oposição a Tomás Correia, como o grupo de clientes Salvem o Pelicano ou Álvaro Dâmaso - dado como potencial candidato à presidência da associação mutualista, em confronto com Tomás Correia, nas eleições que vão decorrer em Outubro.

“Esta tendência vive muito da animação de Braga Gonçalves, de quem sou amigo. Ele adora isto, coordena e estimula. É um comunicador”, assume ao SOL Álvaro Dâmaso, apontando o carácter “informal e pouco profissional” deste movimento, em que os encontros são muitas vezes no restaurante Clara, no Campo Mártires da Pátria, ou no Solar dos Duques, em Campo de Ourique.

Álvaro Dâmaso admite que foi já sondado “muitas vezes” para ser candidato à associação mutualista, incluindo por esta tendência mais recente, que se formou no último ano. Mas este antigo deputado do PSD, ex-presidente da CMVM e ex-gestor do Montepio garante não estar para aí virado. “Tenho 66 anos e estou nos Açores. Não tenho qualquer interesse em voltar ao Montepio”. E acrescenta, em tom de brincadeira: “Quando me perguntam o que faço agora, respondo que mato vitelos e insemino porcas”.

Como em qualquer guerra interna, o último ano do Montepio ficou marcado por informação delicada a chegar a jornalistas para fazer manchetes, por pressões e negociações complexas para definir os corpos sociais da instituição e agradar às diversas sensibilidades dentro do Montepio.

Este braço-de-ferro deverá atingir um novo patamar à medida que se aproximarem as eleições para a associação mutualista, a holding. Depois da mudança de órgãos sociais na caixa económica, com a entrada de Félix Morgado, os cargos de topo da associação mutualista irão agora a votos.

O actual presidente, Tomás Correia, já anunciou a intenção de se recandidatar. Há 650 mil associados e, como cada pessoa tem um voto, há quem deposite esperanças em conseguir arregimentar eleitores suficientes para uma lista alternativa. Álvaro Dâmaso e Braga Gonçalves, embora favoráveis a uma mudança, não escondem a dificuldade em conseguir ganhar a votação. “Numa associação ganham sempre os que lá estão. É muito difícil”, considera Dâmaso.

Braga Gonçalves concorda e rejeita qualquer papel na definição de futuras listas para o Montepio. “Tem de perguntar às outras pessoas. Não sou sócio nem tenho conta no Montepio”.

A questão maçónica

A haver uma tentativa de destronar Tomás Correia, uma das sensibilidades determinantes será a Maçonaria. O Montepio tem alguma tradição desta obediência entre os associados - o pelicano que serve de imagem é um símbolo maçónico -, e houve ecos de insatisfação face à ascensão de Félix Morgado na caixa económica. Este gestor tem ligações à Opus Dei, o que gera reticências no grupo.

Braga Gonçalves já não pertence à Maçonaria Regular, mas consegue fazer a ponte com alguns dos seus elementos. Nos anos 90, o advogado ganhou projecção no meio, tendo chegado a grão-mestre adjunto da Grande Loja Regular de Portugal. No período em que cumpriu pena de prisão devido ao caso Moderna, escreveu dois livros sobre esta obediência.

joao.madeira@sol.pt