Opiniao

O terceiro homem

Para consolo dos socialistas devo lembrar que a história dos famosos cartazes vai ser, como tudo o que acontece em Portugal, rapidamente esquecida. Há, no entanto, um lado enigmático que pode dar um filme. Sabemos que os publicitários experientes Vítor Tito e Edson Athayde não são responsáveis pela incompetência neste início de campanha. Por outro lado, passámos a saber que haverá um terceiro criativo desconhecido que teve aquela brilhante ideia e o poder de distribuir os cartazes no absoluto anonimato e isso não é coisa pouca. Penso que a ideia da campanha não era má. Se as histórias pertencessem às pessoas e as datas fossem mais apropriadas para fundamentar os estragos da austeridade, teria sido interessante de ver. Claro que para isto tinha sido preciso trabalhar um bocadinho. Não deve ser difícil encontrar voluntários na multidão de desempregados e nela alguém que não tivesse trabalho há quatro anos. O criativo ignoto foi preguiçoso.

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Talvez isto que vou contar se passe o ano todo, mas a verdade é que se nota mais no Verão, quando o ritmo abranda e há mais tempo livre para abandonarmos o telemóvel. Tudo começa com uma chamada não atendida de um número que não conhecemos. Ligamos de volta e ouvimos uma mensagem gravada a dizer que o número não está atribuído. Pronto: é a típica chamada de Verão a querer vender seguros. Nós eliminámos a dúvida mas a pessoa do outro lado quer muito falar e por isso continua a tentar desesperadamente. Ser Agosto e não haver ninguém a atender (porque o telefone não está à mão) não é suficiente para estas empresas perceberem que insistir só irrita a pessoa com quem tão desesperadamente querem falar. E quem está irritado não compra nada. Se forem como eu, não só não compram, como atendem para explicar porque é que assim ninguém vende nada. “Mas posso ligar-lhe na semana que vem?”, “Vou desligar e vai ficar a pensar se pode ou não, está bem?”.

Offline

Sabia que não precisaria de wi-fi para sobreviver. Não estava à espera de nenhum email, podia ficar a ouvir passarinhos cujos cantos não sei distinguir e o mar a enrolar na areia com o telefone desligado ou insolitamente esquecido. À noite havia um café onde era possível pedir uma água das pedras, uma imperial e a palavra-passe. O momento era sobretudo aproveitado para publicar e ver fotografias no Instagram e ler o TLS no iPad. Deve ser a isto que chamam “detox de internet” e posso confirmar que faz bem à saúde, dá energia e acaba de vez com as dores de pescoço. Quer isto dizer, por outro lado, que andamos a viver mal, a tomar más decisões e a perder o nosso tempo ao estarmos sempre ligados à máquina, permanentemente disponíveis com os nossos dados móveis. Percebi que o desconforto não estava na indignação praticada nas redes sociais mas na insistência com que notícias horríveis nos entram vida dentro. Viva offline e leia jornais em papel.

A aula de surf

O mar estava flat e a temperatura do ar chegava aos 35 graus. A bandeira estava verde pela primeira vez, e a água gelada, a lembrar que não se pode ter tudo. A paz estival era temporariamente interrompida por um homem crescido agarrado a um transístor sintonizado na M80 e um grupo de pessoas vestidas com fatos de borracha pretos, a maioria de pranchas de surf debaixo do braço. O homem passou e o grupo ficou. Corrida seguida de alongamentos seguidos de um exercício que consistia em passar de estar deitado numa prancha imóvel na areia para ficar de pé, joelhos dobrados, os braços afastados do corpo. Repetiram o exercício na areia e ouviram uma explicação em inglês. Havia alunos chineses e alemães. Terminado o exercício entraram na água, que não colaborou. Ficaram sentados nas pranchas. Devia ser a primeira aula de surf nas suas vidas, logo num dia em que o mar, quase sempre agitado, parecia estar a dormir. Aposto que a maioria volta a tentar.

Duas vezes bom

Num artigo na Economist abordaram o grande problema da humanidade chamado Twitter. A condenação consensual do máximo de 140 caracteres como responsável pela iliteracia da juventude foi declarada exagerada e perniciosa. Ser breve continua a ser uma virtude que não se ensina, sendo apesar disso literariamente apreciada. Curiosamente só nos jornais é exigida, não tanto por exigências de estilo mas para não dificultar a tarefa editorial e a paginação. Mas a questão de fundo é não estarmos a formar os nossos jovens na difícil arte da clareza concisa, da adjectivação austera e no combate à divagação inútil, à repetição senil e à informação desinteressante. Mas os jovens estão a aprender o estilo da maneira mais directa e por vezes cruel da exposição pública, mesmo que o público seja formado pelos seus pares. Abaixo as exigências de escrever em dez páginas o que se pode dizer em cinco. Vivam os 140 caracteres que revelam a burrice e o génio.