Cultura

A dimensão do traço que sonha rente ao papel

António Antunes viu os primeiros trabalhos a serem publicados em 1974 no diário República e no Expresso, onde continua a desenharcartoons todas as semanas. Considerado o melhor cartoonista português da actualidade, é autor de vários livros sobre esta arte e dirige o World Press Cartoon. Recentemente, lançou com a conhecida fábrica de cerâmica Bordallo Pinheiro ‘Os Figurões’, uma colecção de caricaturas tridimensional.

Do estúdio para a estação de metro do aeroporto, onde costuma ir ver como o público reage aos seus cartoons que aí assinou em 2012 Sara Matos/SOL

“Para além das questões técnicas, é um bocado a síntese da síntese”. É essencialmente esta a diferença que António entende entre desenhar um cartoon e transformá-lo numa peça de cerâmica. Não são umas peças quaisquer, nem tão pouco uma cerâmica comum, ou não nos estivéssemos a referir ao seu mais recente trabalho - Os Figurões. “Estamos a tentar fazer uma colecção de figuras que sejam marcantes do nosso tempo, mas que tenham várias origens, que sejam de várias áreas”, explica à Tabu. De facto, a crítica e o humor mordaz a que nos habituou, já há algumas décadas a esta parte, um dos melhores, se não o melhor, cartoonista português, constrói-se através da diversidade das personagens, nacionais e internacionais, que escolheu retratar com a fábrica Bordallo Pinheiro.

Destes figurões consta uma caricatura de Obama, que veio ao mundo primeiro em cartoon. Nas mãos de António transformou-se numa pequena borboleta, cujas asas são as próprias orelhas “como forma de retratar todos os casos de escutas, a imagem de marca do presidente dos EUA.” Mas se o artista pudesse destacar alguma peça seria a que retrata Eusébio. “Pela capacidade de encantar que ele teve. Ele era um mágico. As primeiras memórias que tenho dele vêm dos meus tempos de criança. Aí só há a atitude de alguém que está a tentar delinear tudo isso numa peça.”

Embora tenha sido acabada de lançar, a ideia é mesmo continuar esta colecção num futuro próximo. “A Bordallo vai fazer um balanço do impacto que as peças tiveram junto do público. Penso que estão receptivas e que estão a gostar.” Apesar de ainda não existir uma confirmação há uma mão-cheia de personagens a retratar, como  Picasso, Freud, Einstein, Saramago, Pessoa… “Ou até mesmo o Bordalo Pinheiro. Seria interessante ver este caricaturista caricaturado”.

Mas durante as próximas semanas o cartoonista do Expresso irá concentrar-se apenas em adiantar trabalho. Desta vez é o México que o espera, e irá marcar presença no primeiro Congresso Mundial do Cartoon, onde são esperados cerca de 50 profissionais da área. Alguns deles irão expor os seus trabalhos em vários núcleos da cidade, como museus e faculdades, mas haverá também espaço para leituras sobre o tema. Apesar de “pesar terrivelmente”, António levará consigo o catálogo deste ano do World Press Cartoon, do qual é director. As suas intervenções já estão preparadas, mas trata-se acima de tudo de reviver antigas amizades. “Vou encontrar amigos que não vejo muitas vezes porque são de outros continentes. Estas ocasiões servem sempre para isso mesmo. Isto acaba por ser uma família.”

Depois do México o destino será Marselha, onde fará uma exposição com cerca de 60 trabalhos seus, nas últimas semanas de Setembro, com regresso a Portugal marcado para o mês seguinte. Em Outubro regressa às origens, com uma exposição nas Caldas da Rainha, que poderá prolongar-se até 2016. “Com este trabalho para a Bordallo acabei por andar muito por ali. A exposição vai andar de município em município durante algum tempo. Vai ter uma componente bordalliana, ou seja, dentro da panóplia do meu trabalho vou apresentar alguns desenhos que eu fiz de forma a relacionar o génio da casa com o génio das Caldas, o Rafael Bordalo Pinheiro.”

Comedido nos planos e nos sonhos, esta exposição será provavelmente o único plano a cumprir no início do próximo ano, não sabendo o que o futuro lhe poderá reservar ao certo. “Sou muito português nisso. É um passo de cada vez, não dá para sonhar alto porque a realidade diz-me que não o posso fazer. Não me orgulho nada de não ser capaz de sonhar alto, simplesmente porque não há condições. É como se eu sentisse que tenho um carro que pode alcançar mais velocidade, que dá mais, mas que eu não consigo passar para a quarta mudança e ter de me manter na terceira.” Confessa, no entanto, que gostaria muito de fazer mais trabalhos semelhantes aos que fez em 2012 para a estação de metro do aeroporto, local ao qual se desloca, por vezes anonimamente, apenas para ver como é que quem por ali passa reage aos seus cartoons. “É muito giro ver as pessoas a tocarem piano com a Maria João Pires, ou a tirarem fotografias com o Fernando Pessoa. Toda a gente gostou. Mas e agora?”, questiona-se. “E agora, nada! Somos um país de nadadores”.

tabu@sol.pt