Politica

Redes Sociais. O lado negro da campanha eleitoral

No campeonato da contra-informação nas redes sociais, ninguém bate o PSD. Quem o diz são especialistas em comunicação política digital, tanto no lado da coligação como no do PS. Apesar de estarem à margem da estrutura oficial da campanha, militantes e simpatizantes sociais-democratas inundam a rede de ataques a António Costa e ao PS e chegam mesmo a organizar-se entre si para garantir maior eficácia.

“Aqueles que têm mais influência e mais seguidores falam entre si, de forma espontânea, para acertar agulhas”, revela Arnaldo Costeira, um especialista em comunicação política nas redes sociais e que é militante do PSD, mas assegura não estar ao serviço da campanha. “Mais de 90% das coisas que vão para as redes são de militantes de base, que agem de forma espontânea”, garante, lamentando até algum amadorismo na gestão dos conteúdos por parte dos partidos.

“As campanhas modernas têm de passar pelo Facebook. O porta-a-porta é uma coisa do passado”, critica. A opinião ainda não é partilhada pelas direcções dos partidos, que apostam mais nas fórmulas tradicionais. Mas entre os militantes do PSD, há verdadeiras tropas de combate no Facebook. “A máquina do PS da era Sócrates era mais profissional. A do PSD nas redes sociais tem muito mais força”, garante Arnaldo Costeira.

Com o Facebook a ter em Portugal 4,5 milhões de perfis activos, os especialistas são unânimes em considerar um erro a falta de investimento nas redes sociais. “Não ganham eleições, mas podem ajudar a perder” - diz ao SOL Rui Lourenço, especialista em redes sociais que já participou em várias campanhas políticas.  “É falso que a maioria dos utilizadores sejam jovens. Só por desconhecimento se pode pensar isso”, corrobora Arnaldo Costeira, explicando que esta é uma “nova proximidade”, mais rápida e mais eficaz do que qualquer comício ou ‘arruada’.

Apesar dos exemplos que vêm de países como os Estados Unidos, onde o Twitter é o grande palco da campanha, em Portugal os partidos continuam a dar mais importância ao contacto directo com a população. Coligação, PS e CDU têm pequenas equipas a fazer o trabalho oficial nas redes sociais e no BE não há uma estrutura especializada.

A utilização política destas ferramentas ainda é um tabu e as equipas ou agências de comunicação que as trabalham ficam normalmente na sombra. O consultor Fernando Moreira de Sá foi vítima desse preconceito. Em 2013, deu uma entrevista à Visão para contar a história digital dos bastidores da chegada de Passos Coelho ao poder e da queda do Governo de Sócrates na rede. As reacções foram violentas. Moreira de Sá deixou de falar no assunto e de aceitar trabalhos na área, apesar de continuar a interessar-se “como espectador” pelo fenómeno da política na internet. “Fiquei escaldado”, admite ao SOL.

Dos blogues aos perfis falsos

Foi na campanha de 2009 que os partidos começaram a interessar-se pelas redes sociais, cavalgando a onda de Barack Obama. A contra-informação era feita mais ao nível dos blogues, que hoje perderam importância. “Tínhamos a preocupação de alimentar dois ou três blogues de referência para puxar sectores pelo nosso argumentário, mas sem serem blogues oficiais”, revela Luís Bernardo, ex-assessor de José Sócrates.

O mais famoso era o Câmara Corporativa que esteve uns tempos inactivo e voltou recentemente à actividade, mas sem o mesmo impacto. “Para nós, sempre foi claro que as redes eram o futuro dos meios de comunicação”.

Foi também nessas legislativas que Miguel Relvas montou uma estratégia digital para derrubar Sócrates. “Os blogues quase morreram. Subsistem dois: o Insurgente à direita e o Aventar à esquerda, mas quase moribundos. O Facebook esmagou tudo. Até o Twitter perdeu o pé”, aponta Moreira de Sá.

Os blogues são agora substituídos por perfis falsos no Facebook. São várias as contas falsas alimentadas por militantes, principalmente sociais-democratas, que espalham contra-informação pela rede. “Contas que estavam adormecidas desde as últimas legislativas têm vindo a reanimar”, conta um consultor que participou em campanhas do PS.

O objectivo é partilhar notícias ou mensagens jocosas sobre o adversário. Às vezes são os próprios a criar a brincadeira e quando não há matéria recorrem ao passado. Há casos em que notícias com dois ou três anos voltam a percorrer as redes sociais por iniciativa desses perfis falsos.

“O grande boom dos grupos do Facebook foram as autárquicas de 2013. Tenho a certeza de que foram decisivos”, comenta Moreira de Sá, explicando que nesse espaço era possível uma comunicação mais directa e eficaz com os eleitores.

“Na altura havia uma página muito crítica do Luís Filipe Menezes e uma do Costa, que ainda está activa e é bastante profissional”, conta Moreira de Sá. Em ambos os casos, os conteúdos são satíricos - como foram também as brincadeiras que se fizeram a propósito dos cartazes de estilo new age do PS.

Fernando Moreira de Sá continua a acreditar que “o PSD e o CDS são os partidos com gente mais activa nas redes”. Luís Bernardo também aponta que há “um trabalho mais fino” por parte da coligação. O PS acusa o toque e o director de campanha socialista, Duarte Cordeiro, garante ao SOL que vão “tentar detectar logo os ataques e apostar no esclarecimento rápido”.

O perigo da vitimização

Difícil é encontrar os autores dessas brincadeiras que se tornam virais. Nas direcções dos partidos, rejeita-se essa forma de comunicar. “Se há orientação que damos é no sentido de moderar esse tipo de coisas. Não queremos isso”, garante ao SOL o director da campanha da coligação, Matos Rosa.

Quem está entre os franco-atiradores da net, assume-se como isso mesmo. “São coisas espontâneas. Alguém tem jeito para brincar com as imagens, faz uns bonecos e a coisa pega”, revela um apoiante do PSD que já ajudou a espalhar pelo Facebook cartazes jocosos com Costa.

“Passos Coelho é completamente contra esse tipo de estratégia. Conheço-o bem e sei que essas são as orientações da direcção do partido”, assegura Arnaldo Costeira. De resto, os especialistas na área desaconselham o abuso da ridicularização do adversário. “Há o perigo da vitimização”, alerta Fernando Moreira de Sá. “Ou o efeito underdog. As pessoas podem começar a ter pena”, concorda Arnaldo Costeira.

Ex-assessor de Sócrates dá conselhos aos partidos

Para Luís Bernardo, os partidos estão “completamente desfasados da realidade” nesta campanha. “Até houve um retrocesso em relação a 2009”, legislativas que ficaram marcadas por uma “mudança” na forma de fazer campanha. Esse foi, aliás, o ano em que a equipa da Blue State Digital, que trabalhou com Obama, veio dar uma ajuda a Sócrates.

O especialista deixa algumas dicas: os partidos deveriam fazer vídeos de poucos segundos, especialmente para o Twitter e Facebook, e um levantamento dos distritos onde as votações da coligação e do PS estão mais próximas. “Aí, deveria haver uma campanha nas redes a explorar as principais mensagens de forma direccionada”.

Já Rui Lourenço acha que tem de haver um “trabalho de monitorização permanente” em campanha: “Os políticos têm de saber o que as pessoas dizem deles para se protegerem de rumores, responderem imediatamente quando há uma crise e melhorarem enquanto candidatos”. 

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