Cultura

Documentário. Agora vamos tocar em Anselmo

Houve duas coisas sobre Anselmo Ralph que surpreenderam Paula Campos e André Banza, a guionista e o realizador de Vontade de Vencer, o documentário sobre o músico angolano que está já nas salas de cinema nacionais: «O público absolutamente transversal, tanto a nível etário como social» que gosta do cantor e a «capacidade que ele tem de criar em estúdio». Se um destes aspetos é percetível a qualquer pessoa presente num espetáculo seu, o outro estava, até aqui, reservado apenas à equipa que acompanha e ajuda a consolidar a carreira do músico. Mas são momentos inéditos como este - onde se vê Anselmo a trabalhar, por exemplo, com o famoso produtor norte-americano Ryan Leslie - que preenchem o filme de uma hora e quarenta minutos, traçando-se o percurso do cantor desde tenra idade até ao fenómeno de popularidade que é hoje. 


«Pelo que observava à distância, sempre pensei que o sucesso do Anselmo acontecia mais nos centros urbanos. Foi surpreendente perceber que tem fãs de norte a sul do país», comenta Banza, revelando que acompanharam o cantor na extensa digressão de mais de 80 espetáculos que promoveu pelo mundo à boleia do sucesso ‘Não me toca’. 

O mote para as filmagens, contam à Tabu os autores da obra, partiu de um desafio que a agência que representa o músico, a Semba Comunicação, lançou, em maio do ano passado, à produtora portuguesa Até ao Fim do Mundo. Por ser jornalista há muitos anos, e não ser apreciadora do género kizomba, Paula Campos olhou para o projeto com a objetividade que marca o seu dia a dia profissional e começou por ler tudo o que encontrava sobre o cantor. Depois, preocupou-se em recolher depoimentos das mais variadas pessoas - desde músicos e técnicos que colaboram habitualmente com Anselmo, até nomes menos consagrados como Paulo Flores e Eduardo Paím, ou outros menos óbvios como Kalaf -, de forma a construir um perfil imparcial na voz de terceiros. «O impressionante é que, independemente da área musical em que se movem, todos o elogiam e reconhecem o seu papel na implementação da música angolana em Portugal», diz a guionista. 

Sobre as opções estéticas do filme, o realizador - que assina aqui o seu primeiro documentário, depois de ter trabalhado vários anos em televisão em programas como Os Contemporâneos e O Último a Sair - quis evitar o «olhar muito polido e plástico» recorrente no formato, privilegiando «um estilo mais cru». «Quis que a câmara fosse um olhar sempre presente, quase como ação-reação. Criar a sensação no espectador de as coisas estarem a acontecer naquele momento». 

Para conseguir esse efeito, a equipa de filmagens ficou reduzida a quatro pessoas - além de Paula e André, um diretor de fotografia e um técnico de som -, e decidiu-se não encenar nada. «Às tantas, estávamos sempre a tentar antecipar os acontecimentos, à procura dos momentos que o Anselmo estava menos à espera», explica o realizador, sublinhando que o cantor conseguiu abstrair-se da câmara. 

A par do percurso artístico, a vida familiar do ídolo angolano também é exposta, mas não de forma gratuita. «Há pormenores do trajeto profissional associados ao percurso pessoal do Anselmo, como os tempos que viveu em Nova Iorque, onde também recebia tratamentos para a doença que tem desde criança [miastenia grave, doença neuromuscular auto-imune que provoca fadiga dos músculos voluntários]». 

Apesar de as fãs serem, como é expectável, as maiores interessadas no documentário, Paula Campos e André Banza esperam que o filme cative outros espetadores, «gente que gosta de música e de cinema», e que só julguem o filme depois de o verem.

alexandra.ho@sol.pt