Internacional

Grupo dá voz a quem deixou de ser muçulmano

Em Londres, há dez anos, era possível ver na rua pessoas de origem indiana com estranhas t-shirts. Eram estampadas e diziam em letras claramente legíveis à distância ‘Don’t freak, I’m a Sikh’ (não se assuste, sou um sikh). Por que haveriam os seguidores desta religião originária do Punjab, na Índia atual, afirmar em tons garrafais a sua identidade, para todos a verem? Assim distinguiam-se dos muçulmanos, cuja presença na capital inglesa causava calafrios e hostilidade aos transeuntes de origem europeia. Recorde-se que o duplo ataque terrorista levado a cabo por jovens muçulmanos havia sido a 7 de Julho, no metro e num autocarro, com milhares de vítimas.


O fanatismo de alguns havia vencido uma batalha: atingiu o coração do reino e criou um clima subsequente de medo. Ninguém mais, no mundo Ocidental, parecia poder olhar para um muçulmano sem receio ou ódio. Alguns elementos moderados residentes em Londres queixam-se de, ainda hoje, serem postos de lado. Todos conhecem o resto da história: Desde essa altura - Nova Iorque e Madrid já tinham sido atacadas - o Islão pôs-se ainda mais na berlinda, com atentados em três continentes e mais uma força de radicais que se soma à Al-Qaeda e ocupa parte importante do Iraque e da Síria.

Nos EUA, porém, há quem queira resistir. Este ano, algumas ações de solidariedade com o bloguer saudita Raif Badawi - preso desde 2012 no seu país e condenado a mil chibatadas repartidas por 50 por dia por delito de opinião - serviram para que uma associação fora do comum saísse do casulo e viesse protestar frente à embaixada da Arábia Saudita em Washington. Protestos destes multiplicam-se no território norte-americano, mas as palavras de ordem deste grupo eram invulgares. Os cartazes diziam ‘Muçulmanos por Badawi’.

À frente do pequeno grupo de pessoas, um jovem norte-americano de origem - e educação - muçulmana destacava-se. Muhammad Syed coordena um grupo chamado Ex-Muçulmanos da América do Norte (EMAN), no ativo desde 28 de Setembro de 2013. A ideia é reunir todos os muçulmanos de origem e ateus - ou agnósticos - por convicção, para que possam viver sem medo dos radicais da sua antiga confissão e afirmar-se numa sociedade que olha para eles como terroristas, quase sem exceção.

Syed percebeu, há alguns anos, que o seu rumo como seguidor do Islão estava condenado ao ceticismo. Bastou-lhe algo tão simples quanto estudar o Corão: «Passei perto de um ano a estudar o Islão para o compreender melhor, com o objetivo de me tornar um muçulmano melhor», responde, em entrevista por email, à Tabu. «O que descobri, afinal, foi um texto que tinha uma origem clara nas ideias do século VII e muitas delas estavam nitidamente desatualizadas ou eram mesmo incorretas». Muitas das histórias encontradas no livro sagrado eram versões de outras que remontavam a Aristóteles ou Galeno, ou ainda aos tempos de Zoroastro.

Syed virou-se então para uma abordagem mais racional da vida e abandonou não só a sua, mas qualquer religião. «Se olharmos para a conceção de Deus nas nossas tradições populares é dolorosamente óbvio que ele é limitado pela imaginação humana e é um espelho das nossas fragilidades», constatou. Acabámos, por, «em essência, criar deus à nossa imagem de primatas», ataca.

Mas, num mundo de fatwas - ou condenações - a apóstatas e arrependidos quejandos no mundo muçulmano, um tal arrojo opinativo não lhe desperta medo? «Temos sido ameaçados, mas felizmente ainda não atraímos a atenção dos jihadistas». Syed vai mais longe: «Um dos nossos objetivos a longo prazo é aumentar o número dos que querem afirmar publicamente a sua dissidência». Quanto a ele, nascido nos EUA no seio de uma família muçulmana, houve sorte, admite. Os familiares discutiram a religião com o jovem rebelde, mas as coisas ficaram assim. Pelas palavras.

Outros não podem dizer o mesmo. O EMAN serviu de guarida a pessoas que foram alvo de hostilidade aberta por parte de familiares, chegando alguns a temer agressões físicas. Syed narra, noutra entrevista, o caso de três irmãos canadianos em que a ‘desconversão’ da irmã mais velha levou-a ao ostracismo. Os dois irmãos, que viviam o Islão de forma tradicional, acabaram por segui-la e tornaram-se também ‘ex-muçulmanos’. Hoje vivem longe da família.

Apesar das ações de protesto, o grupo ainda não ultrapassa algo entre os 50 e os 100 membros, dispersos entre os EUA e o Canadá (na área de Toronto). Muhammad Syed assume que é feito um controlo um pouco mais apertado para a admissão no EMAN, para evitar ‘infiltrados’ radicais. De resto, os membros do grupo não gostam de ser precisos na divulgação destes números, para assegurar alguma tranquilidade no interior da organização. Seja como for, admite, «a resposta que tivemos desde o início superou todas as nossas expetativas».

Este é o primeiro grupo do género no mundo, segundo Syed. Mas noutras latitudes é possível encontrar algumas pessoas que desistiram do espartilho religioso, mas que vivem na clandestinidade. É o caso de alguns dissidentes do Paquistão ou do Egito, por exemplo. Em Londres, um grupo chamado Faith to Faithless (Fé para os descrentes) aceita dar voz aos apóstatas, em www.faithtofaithless.com. Alá já foi grande…

ricardo.nabais@sol.pt

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