Cultura

Um dia no Panteão

O amor move montanhas. Ou impede que elas se movam. Simão Solis, acusado de roubo do sacrário da igreja de Santa Engrácia e queimado em praça pública, disse: “É tão certo eu estar inocente como estas obras nunca terminarem”. A sua única culpa era amar uma noviça. Durante quatro séculos, serviu de fábrica de calçado e armazém de armamento militar. Pareciam as obras de Santa Engrácia. E foram. Hoje é o Panteão Nacional.

O fado de Amália Rodrigues ecoa entre paredes e colunas. A sonoridade da música ‘Für Elise’, em piano, de Beethoven, compõe a banda sonora da visita ao monumento. E, no embalo musical entre fado e música clássica, cai no esquecimento a presença de túmulos para serem lembrados os feitos marcantes das personalidades que neles se encontram.

Amália Rodrigues, Eusébio da Silva Ferreira e Sophia de Mello Breyner Andresen foram as últimas três personalidades a receber as honras de Panteão. “Procura-se aqui reconhecer e homenagear personalidades que através das suas obras contribuíram para a imortalização e divulgação da língua portuguesa”, é a inscrição afixada à entrada da primeira sala, onde se encontra a fadista portuguesa conjuntamente com Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro. De estilo barroco, com a assinatura do arquiteto João Antunes, o Panteão é uma celebração da vida.

À saída da estação de Santa Apolónia, no Largo dos Caminhos de Ferro, já se avista a cúpula, uma característica marcante na malha urbana de Lisboa. Sobe-se pela calçada do Forte e a do Cascão e chega-se ao Campo de Santa Clara. Uma lufada de ar fresco é a sensação que se tem quando se avista o Panteão. O seu mármore branco reluz ao sol da manhã num dia quente de agosto. Estaria um silêncio absoluto se não fosse dia de Feira da Ladra. O ambiente calmo do adro contrasta com a parte traseira do edifício onde se ouvem vendedores a regatear todo o tipo de pertences e há quem ouça uma música de Quim Barreiros.

O sino da igreja de São Vicente de Fora ainda não assinalou as dez horas e já várias pessoas se encontram no Panteão à espera que abram as portas. De máquinas fotográficas ao peito e mapas na mão, aproveitam para tirar fotografias no adro e na escadaria que lhe dá acesso. Ouve-se o barulho das rodas de um tuk tuk nos paralelos da calçada. Uma criança presta atenção ao avô que lhe diz serem estas as obras de Santa Engrácia. À entrada da igreja forma-se uma fila com as pessoas mais empolgadas.

“Sei que está o Eusébio e a Amália”, afirma Jorge que, apesar de ser de Lisboa, tirou o dia para visitar marcos importantes da cidade que desconhecia. Antes de se dirigir à entrada diz: “São sempre monumentos de mortos mas fica uma recordação”. Isabel Melo, diretora do Panteão, desmistifica a associação: “Não é um lugar de morte. É um lugar de vida e de celebração. A nossa missão é manter viva a memória das figuras que aqui estão presentes e são homenageadas”. E isso vê-se em pequenos gestos e em grandes feitos.

Um bouquet de rosas vermelhas está pousado em frente ao túmulo de Eusébio. Ao lado, a sua jarra tem um arranjo de flores deixado por Flora, a sua esposa. Mas não é a única celebridade prestigiada por este gesto. Os fãs de Amália Rodrigues enfeitam a sua jarra e Sidónio Pais, às vezes, também as recebe. “Mas nós não sabemos de quem. Dizem que teve muitas pretendentes”, explica um dos funcionários do Panteão, e acrescenta: “Qualquer pessoa que entra aqui pode colocar flores”.

Existem os túmulos divididos pelas três salas, e existem os cenotáfios, na nave central, de forma a homenagear outras personalidades que não se encontrem no Panteão, como é o caso de Vasco da Gama e de Luís de Camões. Estes cenotáfios geram alguma confusão nos visitantes. “Na viagem vínhamos a conversar sobre quem estaria no Panteão e referimos Camões. Só depois é que nos lembrámos que se encontra no Mosteiro dos Jerónimos”, afirma Ana Melo. Mas são poucos os visitantes que entram com o propósito de homenagear. “Se entrarmos é para vermos o edifício”, diz Fernanda, acompanhada dos filhos e do marido. E existe quem pense que a entrada não compensa. É o caso de Manuel Bengala: “A minha mulher entrou mas eu penso que é um abuso pagar entrada. Parece que aqui em Lisboa tudo se paga”. Sentado no muro que ladeia as escadas frontais, Manuel espera a sua mulher e afirma: “Discutiu-se muito a vinda de Eusébio para o Panteão mas não foram discutidos assuntos realmente importantes: aqueles que dizem respeito à vida individual de cada cidadão”. Quando Fátima, a sua mulher aparece, afirma de forma convincente de que vale a pena visitar o edifício: “É muito bonito e a vista do terraço é magnífica”.

O panorama que se tem do Panteão, assim que se acaba de chegar ao Campo de Santa Clara, é magistral mas a chegada ao terraço é de cortar a respiração. “A subida ao terraço é sempre uma agradável surpresa para quem nos visita”, afirma Isabel Melo, diretora do Panteão, e acrescenta: “Costumam dizer que é o segredo mais bem guardado de Lisboa, mas nós não queremos isso. Queremos que o conheça”.

A paisagem panorâmica que se tem do terraço é marcada pelo correr do rio Tejo e pela presença da estátua do Cristo Rei. Avista-se a ponte 25 de abril, inaugurada em 1966, no mesmo ano do Panteão. Um cruzeiro encontra-se no cais e, contornando a cúpula, vê-se a confusão típica da feira, com os toldos montados para proteger do sol e mantas sobre o chão a servir de montras. Contudo, não é só a vista que surpreende, é também a calma que se sente. Várias pessoas aproveitam para relaxar e até mesmo para meter as leituras em dia. Como o calor da tarde começa a fazer-se sentir, há quem aproveite a sombra e a brisa do terraço para descansar.

Quer seja pela subida ao terraço ou pelo edifício, os números não enganam. Nos últimos seis anos, u verificou-se uma subida de quase 40 mil visitas e os motivos são variados: “Temos desenvolvido vários projetos como concertos e parcerias com escolas, mas o turismo em Lisboa também cresceu”, explica Isabel Melo, que não deixa de considerar importante o facto de Amália e Eusébio ainda fazerem parte da memória das pessoas. “Existem muitas pessoas que os conheceram e, quando cá vêm, fazem questão de lhes prestar uma homenagem”, acrescenta. Emma, dos Estados Unidos, está em frente ao túmulo de Eusébio mas não sabe quem é: “Entrei porque é um dos edifícios mais bonitos de Lisboa”. E há quem faça questão de tirar uma fotografia com o futebolista. Por ser a personalidade mais recente no Panteão, as pessoas identificam-no com mais facilidade, no entanto, não é a única presença na sala. À sua frente está o túmulo da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen e, ao lado, Humberto Delgado e Aquilino Ribeiro. Só falta visitar a sala número três onde se encontram personalidades importantes na história da política portuguesa. São eles: Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais e Teófilo Braga.

Com o fim da tarde a aproximar-se, e depois de uma manhã a visitar Lisboa, há quem aproveite o ar fresco do Panteão para descansar e há quem ‘passe pelas brasas’. Pai e filha sentam-se no centro da nave central. E um casal de namorados passeia de mãos dadas entre corredores e salas. Mas para quem acaba de chegar, ainda tem de subir quatro lances de escadas, isto se quiser visitar o terraço e o varandim circulante da cúpula. Nesse corredor estreito e alto, pouco falta para se chegar ao topo, mas não se aconselha a quem tenha vertigens. Ao olhar para baixo, a sala principal ganha outra notoriedade. As pessoas parecem pontos que dançam ao som da música: param quando há pausas e recomeçam a caminhar assim que ouvem a primeira nota. Mais uma vez, toca Beethoven e canta Amália. Como num bailado, existe o cenário, os bailarinos e os figurantes, existe a música e os espetadores e existe a história – a história de quem ali jaz e um dia contribuiu para enaltecer os feitos de um país, que é este: Portugal.

A posição baixa do sol e o silêncio que já se sente do fim da feira indica que a tarde chegou ao fim. Toca o sino da Igreja de São Vicente de Fora às seis horas da tarde. Saem as últimas visitas e fecham-se as portas. No caminho de regresso a Santa Apolónia, leva-se na memória Uma Casa Portuguesa de Amália. E claro, os remates do Pantera Negra. l R.L.

tabu@sol.pt