Opiniao

Estados de Alma

1. É possível Portugal ser competitivo fora do euro? Esta foi a pergunta que motivou um especial do Observador na passada semana. Para mim a questão é algo bizarra. É como se perguntassem se Portugal pode ser competitivo sem ter uma inflação elevada (15%, digamos). A esta questão responderíamos todos (julgo), ainda que surpreendidos, com um assertivo: «Sim! Claro que sim!». Mas trata-se da mesmíssima questão: fora do euro quereríamos desvalorizar a moeda ou seja criar inflação (muita, de preferência); mas esta só ajudará a competitividade se (e enquanto) os trabalhadores e cidadãos em geral se deixarem iludir pelo truque de magia daquele prestidigitador que nos coloca mais notas no bolso mas cada uma delas com valendo menos.

2. Migrantes. O maior movimento migratório desde a última Guerra Mundial é demasiado sério para um tratamento superficial, mas demasiado sério para passar sem nota. Os europeus, continentais e insulares, têm de ser claros, para si próprios e para os outros, em que medida a Europa quer ser Europa. Penso em duas dimensões. A mais óbvia e urgente é a humanitária. Perante uma catástrofe, queremos ou não estar à altura dos valores que propalamos e pelos quais afirmamos a nossa superioridade moral? A segunda é política. Sem as quatro liberdades de circulação – bens, serviços, capitais e pessoas – a União não é uma verdadeira União. A crise migratória está a pôr em causa a liberdade de circulação de pessoas. Se a UE não desenhar uma política de asilo comum (desejavelmente à altura dos pergaminhos humanistas da Europa), os Estados preencherão o vazio, criando as suas próprias restrições à migração intraeuropeia. E elas poderão abranger não apenas ‘sírios e iraquianos’ mas também membros da própria UE (vejam-se as declarações de Theresa May, ministra do Interior do Reino Unido). Quando tal acontecer estaremos próximos do fim da União pois aquilo que os seus cidadãos mais prezam é poder viajar sem fronteiras e com total liberdade.

3. Chamar ‘stôr’ ao empregado de limpeza. O Público noticiou que muitas escolas estão a receber candidaturas de licenciados e «até de doutorados», que escondem o seu grau, a posições auxiliares. É fácil ver aqui desperdício e insinuar uma falha do Governo em assegurar empregos condignos para todos os licenciados. O desperdício de dinheiro dos contribuintes parece estar para além de discussão. Já assacar responsabilidades ao Governo (a qualquer Governo) é um disparate. Como é óbvio, se os jovens escolhem com total liberdade (mas muitas vezes sem grande vocação) cursos que à partida sabem com poucas saídas, só a eles se devem atribuir responsabilidades. Sem desejar parecer cru: trata-se de um problema de investimento excessivo em licenciaturas ou, pelo menos, em certo tipo de licenciaturas; como um economista dirá, a solução para estes problemas é aumentar o custo do investimento. Se os estudantes internalizassem o verdadeiro custo da sua educação certamente faria menos escolhas conducentes ao desemprego ou ao (aparente) subemprego.