Sociedade

Os refugiados que recomeçaram a vida em Portugal

Tariq Saeed fugiu durante a noite. Com outros três paquistaneses atravessou a pé a fronteira do país com o Irão, correndo o risco de ser morto a tiro pelos talibãs. “Fiquei cinco horas dentro de um rio para não ser apanhado. Estava gelado”, conta ao SOL o advogado de 43 anos, que entrou em Portugal a 14 de Junho passado.

Cruzou toda a Europa escondido e acabou a viagem em Lisboa, porque lhe disseram que aqui teria mais hipóteses de conseguir asilo. No Paquistão, fora acusado de “colaborar com o Ocidente” e ameaçado de morte. Trabalhava para uma importante organização internacional de luta pela paz e direitos humanos na cidade de Peshawar, onde vivia com a família. Com a cabeça a prémio pelos talibã, não viu outra solução: fugiu do país.

Vive agora no Centro de Acolhimento para Refugiados da Bobadela, perto de Sacavém, com outras 80 pessoas que pediram proteção internacional ao Estado português. Está a ser apoiado pelo Conselho Português para os Refugiados (CPR) que ajuda, neste momento, 276 requerentes de asilo com carências económicas.

É que, ainda antes de Portugal se comprometer a receber 3.074 refugiados na Europa (ver páginas 34-35), já o aumento de pedidos de asilo se fazia sentir. Só este ano, 633 pessoas pediram proteção a Portugal, mais 191 do que em todo o ano passado. Os pedidos chegaram sobretudo de ucranianos fugidos da guerra, mas também pela primeira vez de chineses.

Na Bobadela, Tarik já está a ter aulas de português quatro vezes por semana. “Quero muito falar português e arranjar um emprego numa organização humanitária”, diz o advogado. Para trás, deixou escondidas numa aldeia dos arredores de Peshawar a mulher e os três filhos: duas raparigas de sete e cinco anos e um rapaz de apenas um mês. É neles que o paquistanês está sempre a pensar: “Já consegui falar-lhes duas ou três vezes. Só quero conseguir que venham para junto de mim”.

‘Tenho casa mas não um lar’

É essa também a grande luta de Innocent: trazer para Portugal a mulher e as quatro filhas de oito, 15, 17 e 19 anos.

Em Portugal há quase três anos, o refugiado do Ruanda já fala um português quase perfeito. Trabalha no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), no Taguspark, em Oeiras. “Faço atendimento telefónico, agendamentos, dou explicações sobre a lei da imigração”, conta o ruandês de 48 anos, que estudou línguas, foi secretário numa universidade e fez traduções de inglês e de francês.

Mas foi outro o emprego que o obrigou a fugir, em 2008, para o vizinho Uganda. Era tradutor e investigador de advogados estrangeiros que trabalhavam no Tribunal Penal Internacional nos julgamentos dos responsáveis pelo genocídio no Ruanda.

Na altura, Innocent denunciou num relatório as perseguições que o Governo ruandês fez a várias testemunhas. Foi ameaçado de morte, perseguido e deixou o país. A mulher e depois as filhas também foram para o Uganda. Mas a perseguição continuou: “Para sobreviver tive de sair de África”.

O seu destino era França ou a Bélgica mas, quando aterrou em Lisboa, ficou retido pelo SEF três semanas no aeroporto e acabou por pedir asilo.

Foi o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) que o apoiou: acolheu-o e ajudou-o a encontrar emprego. Começou por fazer desinfestação de esgotos. Detestou e encontrou emprego num call center. Ao fim de seis meses não lhe renovaram o contrato e candidatou-se ao SEF. O salário permite-lhe agora viver numa casa alugada, um rés-do-chão de um prédio nos arredores de Lisboa.

 Também já visitou Óbidos e esteve no Alentejo. Mas o dinheiro é muito pouco. “Tenho uma casa mas não tenho um lar. A prioridade é trazer a minha família”, conta o ruandês, que já fez um pedido ao SEF para trazer a mulher e as filhas, que já conseguiram documentos no Uganda.

Innocent precisa agora de arranjar 5.000 euros para os bilhetes de avião.

‘Fomos integrados, por isso ficámos’

No seu primeiro Natal em Portugal, a arquiteta Sabina Karamehmedovic, 35 anos, lembra-se de que recebeu presentes. “A minha mãe é ortodoxa, o meu pai muçulmano e a família não era muito religiosa. Esse Natal foi para nós uma festa alegre”, recorda a bósnia que tinha 12 anos. Chegou ao país em Setembro de 1992 com a irmã, Dragana, de 14, e a mãe Vesna juntamente com 100 refugiados da Guerra na Bósnia, integrados na missão ‘Crescer em Esperança’.

Mas, ao contrário do resto do grupo, não ficaram muito tempo instalados em centros e colónias de férias. Foram acolhidos por uma família em Soure, onde passaram esse primeiro Natal. “Éramos para ficar uns dias, ficámos meses”, lembra a bósnia. O pai Faud juntou-se à família que chegou primeiro e acabaram todos por viver em casa da família de Macedo Costa.

“Foi num artigo de jornal que soubemos desta família e fomos busca-los a uma colónia de férias à Praia das Maçãs”, recorda o antigo inspetor da IGAI que juntamente com a mulher Gena os integraram em Soure. “As crianças não falavam nada só sabiam cantar o ‘Indo eu a caminho de Viseu’”. conta.

 As irmãs foram inscritas no 6.º ano na escola de Soure. Fizeram amigos. Faud arranjou trabalho numa ‘loja dos 300’ e meses depois mudaram-se para um apartamento na mesma rua da família. Depois foram viver para Coimbra, quando Sabina entrou no 10.º ano, porque queria estudar arquitetura e em Soure não havia essa área de ensino. Licenciou-se naquela cidade, onde trabalhou até há um mês e meio como arquiteta num gabinete, juntamente com a mãe. Está desempregada. Vive em Coimbra com o marido, um engenheiro que aqui conheceu e com quem casou em 2010. “A vida em Soure foi fantástica”, recorda. “Fomos bem integrados, por isso fomos os únicos do grupo que ficámos”.

‘Não me deixavam ser eu’

D., de 29 anos, chegou há menos de um mês do Gana. Fugiu da capital, Acra, onde sempre viveu, porque era perseguido pela sua orientação sexual. “Fui classificado no meu país como um problema africano. Perdi o respeito de todos: da família, dos amigos, fui perseguido, ameaçado”, lamenta o jovem que, depois de 12 dias de espera no aeroporto da Portela, foi transferido há uma semana para o centro da Bobadela. “Sinto-me seguro”, afirma o ganês.

No Gana, onde as relações homossexuais são crime, o Governo tem ordenado a prisão de homossexuais e incentivado a sua perseguição. D. foi ostracizado pela família e mudou de bairro, mas a perseguição continuou. Refugiou-se em casa de um amigo, o mesmo que o ajudou a planear a vinda para Portugal. Do país só conhecia o galo de Barcelos e alguns pratos tradicionais que experimentou num restaurante português em Acra, mas o amigo garantiu-lhe que aqui estaria seguro.

Esta terça-feira andou de metro em Lisboa pela primeira vez e ficou extasiado com as bancas de colares que viu nas estações. No Gana comprava e vendia bijuteria e era isso que gostava de continuar a fazer em Portugal. “No Gana não me deixavam ser eu. Aqui espero consegui-lo”.

joana.f.costa@sol.pt