Opiniao

O bairro dos atores…

O ator político ganhou uma relação de grande dependência com o palco mediático. Esteja no ativo ou na ‘reserva da Nação’, procura-o com indisfarçável avidez. Sem esse espaço não existe. Pior: serve-se dele para impor agenda própria e utiliza-o, frequentemente, para ajustes de contas, breviário de ressentimentos que nem sequer esconde. 

O bairro dos atores…

É essa esgrima de florete que motiva as televisões, em nome das audiências a qualquer preço. A contratação de políticos, como ‘comentadores’, seguiu a mesma lógica. Cada canal tem os seus e todos fazem pela vida.

A montra é vasta e plural. Da direita à extrema-esquerda, com maior ou menor currículo, não faltam os nomeados, candidatos à fama.

De todos, Marcelo Rebelo de Sousa ocupa o primeiro lugar no pódio, com invejável e longeva popularidade, e um estatuto transversal à sociedade portuguesa. Não lhe faltam discípulos - alguns, por sinal, miméticos no formato -, disponíveis para concorrerem à sua ‘cátedra’ mediática quando se ‘jubilar’, o que não estará longe…

Um dos oráculos que o seguem de perto é Marques Mendes, também ele ex-presidente do PSD e rodado nos bastidores da governação. Buliçoso no estilo, joga na antecipação e gosta de mostrar que tem acesso a fontes privilegiadas.

Procura levar a água ao seu moinho, simulando equidistância, mas falta-lhe ‘jogo de cintura’ para disfarçar as preferências.

Outros são os caminhos de José Pacheco Pereira e de Manuela Ferreira Leite, dois companheiros de partido que encontraram no espaço mediático um modo de vida e uma alavancagem para os seus ressentimentos. Partilham o azedume em antena.

Com um histórico já longo na Quadratura do Círculo, Pacheco Pereira conviveu com vários interlocutores à esquerda, antes de recuperar a cartilha radical. A sua acrimónia em relação a Passos Coelho chega a ser penosa. Resta António Lobo Xavier como contraponto, a defender, isolado, as cores da coligação. António Costa, enquanto esteve, sorria embevecido.

Protagonista assíduo dos media, na imprensa e nos audiovisuais, Pacheco Pereira distingue-se, contudo, por ser um assanhado crítico desses mesmos media e do jornalismo que praticam. Erudito e versátil, com um discurso fluente de verbo afiado, gosta de passear fora das câmaras a imagem de eremita, refugiado na sua vasta biblioteca. Porém, quando escreve ou fala, destila ressentimentos. Uma pena.

Manuela Ferreira Leite, investida no papel, ainda recente, de ‘comentadora’ televisiva, é outro exemplo de recalcamentos à flor da pele. Ácida na avaliação do Governo, fá-lo, por vezes, de uma forma inesperadamente superficial e menos fundamentada. Esbanja a credibilidade que tinha como principal ativo.

Valeu-lhe já o elogio do António Costa, ao gabar-lhe a proximidade e identidade das ideias.

Embalada, talvez, por esta cantiga, Ferreira Leite decidiu aceitar a apresentação de um livro do qual é coautor Pedro Adão e Silva - um ‘jovem turco’ do PS, aspirante a voos mais altos.

Terá a seu lado - cereja em cima do bolo - Mário Centeno, o coordenador do programa económico socialista, também candidato a deputado. Em plena campanha eleitoral, o gesto é tudo menos inocente.

É certo que ainda não manifestou - como António Capucho na Convenção socialista -, a sua admiração por António Costa e a «plena confiança no plano pessoal e político». Mas, pelo andar da carruagem, não tardará. A menos que o desfecho de outubro a desiluda.

A luta pela sobrevivência política é árdua. E, no afã de manter a cabeça fora de água, há quem perca o pé no meio da corrente. E se deixe ir na onda.

Abundam os casos dos praticantes que se agarram a qualquer tábua para aproveitar a maré. A psicóloga Joana Amaral Dias, dissidente do Bloco e cabeça de lista do Agir, que o diga.

Dececionada, talvez, com o facto de ninguém ser capaz de soletrar as propostas da coligação para onde se mudou, lembrou-se de transformar, em ato político, a sua nudez grávida, sob a forma de capa de uma revista de fait-divers. Cheia de convicções libertárias e fraturantes, nem lhe ocorreu que os seus companheiros de partido não achassem graça nem aplaudissem. Entrevistada na TVI, percebia-se o embaraço.

A ousadia da candidata a deputada teve, ao menos, o mérito de se falar nela. Escolheu a intimidade do corpo. Menos voluntarioso, o grego Varoufakis limitou-se em tempos, ainda ministro, a posar com a mulher para a revista Paris-Match, em estilo casual, desvendando o interior da sua casa com vista para o Partenon.

No bairro dos atores, são diversas as coreografias. Cada porta exibe uma cor diferente. Sobram os egos, as máscaras e as utopias. A política embriaga. Na ressaca, alguns escorregam, enganam-se na cor e batem à porta errada…

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