Opiniao

O explicador Portas e a caloira Heloísa

Heloísa Apolónia, uma deputada experiente mas caloira em debates televisivos pré-eleitorais teve o azar de ter pela frente  na estreia um Paulo Portas em forma. O presidente do CDS tinha-se confessado "encantado" quando soube que ia debater com Heloísa, devido à recusa de Jerónimo de Sousa, mas não subestimou a adversária. E não perdeu a oportunidade de falar para todo o eleitorado. A mensagem conseguiu passar com uma argumentação forte, apesar de sereno e cordial no tom, foi a de que o país está melhor graças ao Governo e de que com as ideias do PCP e do PEV estaria na desgraça. 

Doutoral, o líder centrista, propôs-se dar lições de economia. "Com certeza que levei a sério este debate!", e tinha as contas na ponta da língua. Começou pelo euro, citando estudos, mostrando que os rendimentos de salários e pensões ficariam reduzidos a metade. Heloísa bem protestou que queria apenas preparar o país para uma eventualidade, mas levou com a primeira repreensão:  "Todos lá em casa terão reparado que a senhora deputada não apresentou remédios para a saída do euro". 

Num debate muito ideológico, Portas encostou a adversária às cordas na discussão sobre a nacionalização dos sectores estratégicos da economia (curiosamente tendo sido Heloísa Apolónia a puxar o assunto). 28 mil milhões foi número que o líder centrista atirou para cima da mesa, sobre o custo de privatizar a REN, a GALP e a EDP. "Um ano inteiro de IVA e IRS", repetiu. 

A favor de Heloísa Apolónia no debate da TVI 24 pode invocar-se a honestidade intelectual. Mas a fraqueza de argumentos, face a Portas, foi desmesurada. "Não concordo nada com esta noção inventada do arco da governação", diria, no início. O problema foi que não se conseguiu bater em argumentos nem em números. "O eixo central do nosso modelo económico são as pessoas", explicava-se Heloísa, instada a construir uma alternativa política. 

O melhor de Portas e o pior de Heloísa deu-se na discussão sobre o desemprego. O centrista mostrou um mapa com as câmaras da CDU e afirmou que todas usavam os estágios curriculares, estágios que a adversária tinha identificado com desemprego camuflado. "Então são bons quando são a CDU a fazer e são maus quando é o governo?". Heloísa tinha, nesta altura, chumbado o exame.

Curioso neste debate foi também ver o que separa Portas e Heloísa Apolónia dos seus parceiros de coligação. O centrista tentou puxar pela sua agenda da "lavoura" e das pescas. De forma quase cómica, Portas disse, que face ao desinvestimento reinante na agricultura e nas pescas, procura na "medida" da sua "influência" "fazer o contrário, graças a Deus". Já Heloísa foi menos fervorosa na saída do euro do que Jerónimo de Sousa se tinha mostrado, no debate com António Costa. 

A dirigente do Partido Ecologista 'Os Verdes', Heloísa Apolónia, esqueceu-se completamente da agenda ecologista. Uma breve alusão a "política ambiental" é poucochinho, muito poucochinho. Portas bem que podia ter evitado a piada estafada de que os Verdes, parceiros eleitorais dos comunista, são como as melancias, verdes por fora e vermelhas por dentro. Até por que a caloira Heloísa foi de facto verde, de inexperiente e ineficaz no frente a frente com o eterno presidente do CDS.

manuel.a.magalhaes@sol.pt