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Ricardo Ângelo: ‘O nosso partido é o nosso dinheiro’

Numa tarde chuvosa, o consultório de dentista no centro de Mangualde está à pinha. Ricardo Ângelo sai a meio da tarde para um café - o seu dia de trabalho só deve acabar depois das 21h. “Não me posso queixar de falta de trabalho. Era o resultado desse trabalho o que eu tinha investido no BES”.

Os últimos meses têm sido assim: divide o tempo entre o consultório de dentista e as funções de presidente da Associação de Lesados do Papel Comercial do BES. Em quatro meses, reuniu 900 associados, que se espalham por delegações no norte, centro e sul. São já nove meses de atividade e nenhuma perspetiva de parar “a luta” que prometem manter bem acesa durante toda a campanha eleitoral.

PS também está na mira dos protestos

Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque não vão ter descanso. Mas António Costa também está na rota dos protestos. “Isto não é uma campanha contra um partido. O nosso partido é o nosso dinheiro”, garante Ricardo Ângelo que se fez porta-voz de um grupo que se formou quase por acaso, mas que hoje é uma estrutura bem oleada.

“Quando começaram a sair as notícias, as pessoas iam comentando nos sites de jornais, como o Diário Económico e o Jornal de Negócios. Criou-se uma espécie de fórum”. Ricardo achou que fazia sentido organizarem-se para defender o dinheiro que tinham investido em papel comercial do BES.

Marcou uma reunião para uma casa que tinha em Matosinhos -  mas com 70 inscritos achou melhor alugar uma sala num hotel. Estava dado o pontapé de saída  para uma associação que tem “sempre quatro ou cinco autocarros” prontos para fazer uma manifestação em qualquer ponto do país.

O financiamento vem de uma quota de 50 euros que todos pagaram e de donativos que vão fazendo. Ricardo revela, aliás, que já por diversas vezes deu dinheiro do seu bolso. A sua situação está longe de ser desesperada, mas há casos no limite.

“Há deficientes que puseram em papel comercial a totalidade da indemnização que receberam. Um senhor que ficou paraplégico, por exemplo, pôs os 300 mil euros de indemnização no BES”, relata, explicando que a associação “acaba por ser um escape” para um cenário que está próximo do barril de pólvora. “Enquanto houver manifestações e esperança, as pessoas vão-se controlando. Quando isso acabar, vai haver mortes”.

Não fala de cor. Há dias, recebeu um telefonema desesperado: “Um senhor de 70 anos estava à porta de uma agência com uma caçadeira e ia matar o gestor de conta”. Ricardo Ângelo lá  foi acalmando-o como pôde, pelo telefone, enquanto outro elemento da associação ia para o local. Evitou-se a tragédia, mas a situação está longe de estar resolvida.

“É um homem que vendeu a pensão onde trabalhou mais de 30 anos e pôs os 150 mil euros da venda no BES. Perdeu tudo. A mulher e a filha acham que a culpa é dele e abandonaram-no. Vive com uma reforma de 230 euros, num casebre”. A história complica-se porque, com os 150 mil euros ainda no extrato bancário, a Segurança Social recusou-lhe ajuda. “Está a receber apoio da Cáritas e eu já lhe dei dinheiro para pagar medicamentos”.

Ideia de Passos é ‘ridícula’

Não foi caso único: “Paguei o advogado a uma senhora que está há meses, todos os dias, há porta da sede do Novo Banco em Lisboa. Ela já não tem dinheiro nem para comer”, conta, explicando que, “se o primeiro-ministro quer ajudar, pode criar uma isenção de custas judiciais para este caso”.

Ricardo Ângelo acha, aliás, “ridícula” a ideia de Passos Coelho de organizar uma subscrição pública para angariar dinheiro para a defesa das pessoas, ao mesmo tempo que atira a solução para os tribunais.

“Mais de 60% dos associados têm mais de 65 anos. Vamos fazê-los esperar 10 ou 15 anos pela Justiça? E até lá? Vivem de quê?”, atira, prometendo confrontar Passos com a pergunta: “Se fosse o seu pai, também lhe dizia para esperar?”.

Vai para a estrada, atrás dos políticos, porque o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa lhe garantiu nos olhos “que só faltava um empurrão político”. Outras situações dão-lhe a certeza de que era possível não ter de esperar pelo tempo sempre lento da Justiça: “Quando houve o acidente de Entre-os-Rios, as pessoas tiveram a indemnização seis meses depois. Ninguém foi para tribunal”.

Ricardo tem até uma solução, numa equação que usa os 300 milhões de euros de provisão feita a mando do Banco de Portugal, a possibilidade de ir sobre ativos do Novo Banco e a responsabilização do eventual comprador, “que só terá a ganhar em resolver a questão, porque para um banco não há nada mais importante do que a credibilidade”.

Costa não se comprometeu

Já levou a ideia a António Costa, “que não se comprometeu, mas ouviu tudo”. Com Passos, ficou com a sensação de que o primeiro-ministro “não quer ouvir”. Com Maria Luís Albuquerque ainda não falou, mas garante que foram as promessas de Portas que levaram aos incidentes de maior agressividade em Ofir, há duas semanas. “As pessoas viraram-se contra ele porque ele tinha-lhes dito que tudo se ia resolver. Mentiu”.

A única figura política a quem dá razão é Catarina Martins. “Tem razão quando diz que a maioria não fez nada para evitar um novo BPN”, afirma, culpando a fraca supervisão do Banco de Portugal no BES.

Com três equipas de advogados a explorar várias estratégias jurídicas e uma providência cautelar já em curso, os lesados têm a certeza de que vão ganhar na Justiça. Mas os casos desesperados de quem ficou sem nada não se compadecem com esperas. “Podiam dar nem que fosse 5% do dinheiro às pessoas para terem com o que viver, pôr um resto num fundo e ir pagando ao longo de 10 anos”, propõe.

“Temos documentos do Banco de Portugal que atestam que o Novo Banco é quem tem de se responsabilizar pelo papel comercial e temos papéis que mostram que nos foi garantido que o investimento tinha juros e capital garantido, era seguro. Fomos enganados”, repete, contrariando uma ideia que tem encontrado nas ruas e que faz, na sua opinião, com que haja ainda pouca simpatia pelos lesados.

‘As pessoas acham que somos gananciosos e ricos’

“As pessoas acham que somos gananciosos e temos muito dinheiro. Estamos a falar de juros de 3% e de algumas pessoas que puseram todo o seu dinheiro no papel comercial. Isto parece coisa de investidor de risco?” - diz, revelando a “pressão enorme” de que foram alvo. “Os gestores de conta recebiam prémios altíssimos para vender este produto”, denuncia.

“Numa semana, foram três vezes ao meu consultório. Eu nunca tinha tido um investimento”. Confiou porque conhecia o gestor do banco desde os 17 anos. Agora, acha que tudo não passou de um esquema de Ricardo Salgado para capitalizar o BES.

“Foram feitas emissões de 149 milhões de euros de cada vez para fugir à supervisão da CMVM. Salgado sabia das falhas da supervisão do Banco de Portugal”, defende, argumentando que até um investidor mais sofisticado teria caído no “esquema” montado.

“Quem consultasse as contas da ESI (Espírito Santo International), veria 1.100 milhões de lucro, quando o que havia era 1.100 milhões de prejuízo. As contas estavam falseadas”, frisa, dizendo que o que aconteceu foi uma burla e que o problema se agravou mesmo depois de o Banco de Portugal detetar os problemas. “O BES foi obrigado a fazer uma provisão de 500 milhões de euros. O problema é que, nas últimas semanas no banco, Salgado tirou 200 milhões para pagar o papel comercial aos amigos”. O resultado: “Quando se criou o ‘banco bom’, abriu-se o cofre e faltava dinheiro”.

Apesar de estar convicto de que o caso abalou a confiança em todo o sistema bancário, continua a ser cliente do Novo Banco e aconselha os outros lesados a fazer o mesmo. “Tirei o dinheiro a prazo, mas eu e a minha empresa continuamos a ter conta no Novo Banco. É importante que continuem a olhar para nós como clientes”. Para já, o adiamento da venda do Novo Banco é “uma vitória” e “mais tempo para a luta”.

margarida.davim@sol.pt