Opiniao

Debate político do ano ‘ignorou’ o imobiliário

Naquele que até agora é, mediaticamente, o debate político do ano em Portugal (entre o primeiro-ministro e o líder do principal partido da oposição) - um frente a frente com tripla moderação que demorou o mesmo tempo de um jogo de futebol -, o setor imobiliário nunca foi expressamente referido. Só o Dr. António Costa, num único e breve momento, utilizou uma das palavras de referência para esta área da frente de recuperação do país - a palavra reabilitação.

 

Quer o Dr. Passos Coelho quer o Dr. António Costa estavam condicionados às perguntas que lhes eram dirigidas pelos jornalistas, que assumiram a condução dos temas a abordar no frente a frente do Museu da Eletricidade. Nas o imobiliário, que tem contribuído para a solução da crise, nomeadamente pela captação de investimento estrangeiro, podia ter sido referido em muitos momentos do debate.

Uma das jornalistas ainda aflorou indiretamente o tema, ao questionar o primeiro-ministro sobre a notícia que no próprio dia rivalizava com o debate, a da confirmação de que o ex-ministro Miguel Macedo, sob suspeita de indícios da prática de crimes de colarinho branco no caso dos vistos gold, tinha sido constituído arguido, mas o Dr. Passos Coelho não quis pronunciar-se.

Não terá sido por causa desta evolução do processo dos vistos gold, conhecida no dia do debate, que o tema da Reabilitação Urbana esteve praticamente arredado. Ao longo da hora e meia de disputa falou-se de Saúde, falou-se de Pensões de Reforma, falou-se dos lesados do BES, mas infelizmente não houve oportunidade para que o tema do Imobiliário e do Turismo, que muito têm contribuído para a nossa retoma, viesse a lume.

Pretextos não faltaram. Nos prometidos alívios da carga fiscal que tem recaído sobre as famílias portuguesas, poder-se-ia falar da anunciada extinção do IMT ou até da desejável diminuição do valor do IMI, já hoje muito elevado e com tendências para que esta situação venha a agravar-se. Mas o tema não chegou a existir no debate em causa, exceto na referência aos impostos que subiram e que todos gostariam que não tivessem subido de forma tão acentuada.

O imobiliário não se reduz às grandes obras públicas, que estão há muito condicionadas, mesmo considerando que algumas poderão ter de ser feitas por corresponderem a investimentos indispensáveis para o relançamento da nossa economia. Embora seja um tema na ordem do dia e mais abrangente, o imobiliário não teve a sorte de ser consagrado no debate do ano e apenas conseguiu que, num breve instante, se ouvisse a palavra Reabilitação.

Sem qualquer sombra de pecado corporativo, julgo que o comportamento deste setor no ‘Processo de Recuperação da Economia em Curso’, cenário que também poderia ser chamado de PREC, uma das grandes exceções pela positiva, nomeadamente quando associada ao turismo residencial, poderia ter merecido outro reconhecimento. É certo que o que conta é como vai evoluir a próxima legislatura e eu tenho esperança que se consolide como pilar da recuperação.

*Presidente da APEMIP, assina esta coluna semanalmente