Politica

Ana Catarina Mendes: ‘Prefiro acreditar na sondagem do dia a dia na rua’

A dirigente socialista anda há dois meses na rua e diz que não ouviu ninguém desejar «que estes senhores continuem». Refere o porto de Sines como oportunidade de criação de emprego e sublinha que em Setúbal o «combate» é também contra a CDU. 

Estreia-se como cabeça de lista e logo num dos distritos decisivos. Tem tido muitas noites em branco?

(Risos ) Claro! Setúbal, pelas suas características sociológicas, já é particularmente difícil e este ano ainda enfrenta o desafio de ter mais um deputado no círculo eleitoral. É um distrito onde o combate do PS é com a direita e também com a CDU, que está na esmagadora maioria das câmaras municipais. São noites em branco que valem a pena, pelo esclarecimento que se está a dar à população.

O que é um bom resultado em Setúbal?

É ter uma vitória esmagadora do PS que ajude a contribuir para uma vitória esmagadora no país. Não vou arriscar um número, mas traduzir-se-á em eleger mais deputados.

O desemprego é um dos maiores problemas no distrito. Como se cria emprego em Setúbal?

O desemprego é uma das piores heranças que este Governo deixa. E é por culpa sua, não é de nenhum memorando da troika. Só na construção civil podia-se ter evitado destruir 50 mil postos de trabalho. Dou também o exemplo do porto de Sines, a jóia da coroa do distrito de Setúbal e do país -  o sector portuário foi abandonado por este Governo. Se não tivessem sido paradas a linha ferroviária e a rodoviária que fazia a ligação de Espanha a Sines teria sido gerada riqueza e emprego para Setúbal e, sobretudo, podia-se ter dado outra dimensão ao porto de Sines -  que acabou por ficar nos mínimos históricos de ampliação do terminal 21, feito com investimento privado, porque o Estado desistiu deste projecto. De resto, entre 2005 e 2011, o porto de Sines foi a porta atlântica de Portugal para a Europa e para o mundo. É apenas um exemplo do que podia ter sido feito pelo desenvolvimento e pelo emprego no distrito. O PS propõe que se volte a agarrar a oportunidade, reorientando fundos estruturais para Sines.

A ministra das Finanças é a cabeça de lista da PÀF. Maria Luís Albuquerque tem razões para ter medo de fazer campanha em Setúbal?

 Maria Luís Albuquerque tem optado por uma campanha muito resguardada e muito institucional. Eu todos os dias ando na rua e sei o que as pessoas dizem e acho que faz bem à democracia que aqueles que tiveram responsabilidades nos últimos quatro anos também andem na rua para saberem as queixas que há.

Qual é a medida fundamental para garantir a sustentabilidade do sistema de Segurança Social?

A medida fundamental é a criação de emprego, porque se nós criarmos mais empregos temos mais gente a descontar para a Segurança Social e aumentamos assim a sustentabilidade do sistema. 

Governo de esquerda: a proposta de Catarina Martins para a uma conversa a 5 de Outubro com António Costa é para levar a sério?

Acho que em momentos eleitorais muitas vezes se apanham oportunidades para dizer umas coisas. Mas ao longo dos tempos, o Bloco de Esquerda tem feito muita campanha contra o PS. Eu espero ainda assim que desta vez seja para levar a sério essa conversa. 

 O Presidente da República deve privilegiar o primeiro lugar em número de votos ou o número de deputados eleitos, quando convidar um partido a formar governo?

O Presidente da República tem de cumprir escrupulosamente o que está na Constituição e deve convidar o partido mais votado para para formar Governo. 

Acredita nas sondagens? As sondagens diárias vão ter efeito na campanha?

As sondagens são isso mesmo, são a medição da tendência eleitoral. Eu prefiro acreditar na sondagem do dia a dia na rua. Eu estou na rua há dois meses e meio e tenho ouvido as pessoas todos os dias. Não ouço ninguém dizer que querem que estes senhores continuem, ninguém dizer que o Governo continue.

Debates: lembra-se de um momento que tenha sido muito importante ou decisivo? O que ganhou o seu partido nos debates?

Olhando para os debates todos, diria que no debate de António Costa com Passos Coelho, ganhou o rigor, a credibilidade e as contas feitas por parte do PS. Desse ponto de vista, António Costa mostrou que está muito mais preparado. Mas deixe-me puxar um bocadinho ao distrito de Setúbal para lhe dizer que depois dos debates que tive com Maria Luís Albuquerque fiquei com a consciência que conheço bem o distrito de Setúbal, ao contrário da senhora ministra das Finanças. 

Festejou a vitória de Alexis Tsipras? O governo do Syriza foi capaz de compromissos e deixou cair o radicalismo: é um exemplo para a esquerda portuguesa?

Não festejei, mas olho para vitória de Tsipras com a exclusão dos radicais do Syriza com uma esperança de negociação para a Grécia e em consequência para a Europa. Para uma Europa mais coesa, mais solidária, e que precisa de novos governos, governos de esquerda que possam alterar o rumo das políticas. Se é um exemplo para a esquerda portuguesa? É. 

Que opinião tem de Joana Mortágua. Consegue indicar um trunfo e uma fragilidade da sua adversária?

Conheço melhor a Mariana [Mortágua] por razões evidentes. Tenho boa opinião da Joana e respeito-a democraticamente nesta sua luta. De resto a Joana foi candidata à câmara municipal de Almada, cruzámos-nos aí também, em campanha. O trunfo da Joana é a sua persistência. O menos bom: a esquerda no distrito de Setúbal é a esquerda do protesto, sempre o protesto, sem solução, e acho que isto não é saudável.

manuel.a.magalhaes@sol.pt