Sociedade

Os três meses de uma portuguesa numa favela do Rio

     

Quando falamos em favelas, pensamos logo num meio pobre, com milhares de pessoas a viver em situação precária e cheias de medo dos gangues ligados à droga. Mas na verdade nem tudo é mau neste pequeno mundo espalhado por muitas ruas estreitas. Foi o que Ruth Oliveira testemunhou.

Filha de mãe portuguesa e pai brasileiro, nasceu no Brasil, mas passou a maior parte da sua vida em Portugal. Quando acabou o curso, não encontrou trabalho. Foi quando decidiu atravessar o Atlântico.

“Fui para o Brasil com o grande objetivo de viver no Rio de Janeiro, mas tive de ir para o Rio Grande do Sul. Assim que juntei algum dinheiro, decidi ir passar o carnaval ao Rio. E não voltei mais”, lembra Ruth ao SOL.

“Durante 3 meses [de março a junho de 2013] vivi na favela do Muquiço, na zona oeste do Rio de Janeiro. Na verdade, existem dúvidas acerca da sua localização: alguns dizem que é zona norte, outros que é oeste…”.

Não foi para a favela por opção, mas porque não teve alternativa: “Ainda não tinha arranjado emprego e fui viver com a ex-sogra do meu irmão mais velho, a dona Leda, que conhecia desde os 11 anos”.

‘Leda dos Bolos’ tem 63 anos e viveu no Muquiço durante 35. Decidiu ficar na favela mesmo depois dos filhos saírem à procura de vida melhor. Pouco a pouco foi melhorando a sua pequena casa e criou o seu negócio – bolos e salgados para festas que chegam a ter 500 pessoas. Apesar de todo o preconceito que rodeia a favela e de ter a oportunidade de ir viver para outro lado, a dona Leda preferia o seu cantinho. Mas, há dois anos, acabou por abandonar a favela para ir viver com um dos filhos.

Dona Leda é apenas uma das muitas pessoas que compõem o mosaico do Muquiço. Ruth descreve: “Temos os evangélicos, com as suas igrejas improvisadas (havia uma em frente à minha casa que não tinha teto), muitas crianças, que se entretêm a jogar futebol e meninas no meio da rua a dançar funk e a comer sacolé (gelado dentro de um saco, que é vendido à janela das casas dos moradores)”.

E também “os trabalhadores por conta de outrem e os que fazem das suas casas o seu próprio negócio - algumas são salões de beleza, outras casas de costura, restaurantes, locais onde vendem ‘quentinhas’ (marmitas) para fora…”. Na verdade, Ruth explica que os moradores “desenvolvem negócios para quem vive dentro da comunidade. É como se o dinheiro circulasse sempre no mesmo meio”.

A ‘gringa’ chegou

Tal como cá, há sempre ‘sururu’ quando chega alguém novo. Foi o que Ruth, hoje com 26 anos, sentiu quando chegou ao Muquiço. “As pessoas são muito curiosas. Viam que eu era diferente, pela cor da pele, pelo cabelo, pela falta de marcas de mosquitos - se não tiver muitas mordidas de inseto eles chamam ‘reloginho’, já veem que a pessoa não é da favela”. 

“Os comerciantes - donos de padarias, mercados e farmácias - perguntavam quem eu era e eu dizia que morava com a D. Leda dos Bolos, que era sua sobrinha. Eles gostam de saber de tudo, é igual a uma grande família. Aquela favela em particular não é muito grande. Tinha milhares e não milhões de habitantes. ‘Todos’ se conheciam”.

Ruth retirou muitas coisas positivas da experiência. De tal maneira que, mesmo depois de ter saído do Muquiço, continuou a ir visitar a D. Leda e a passar o fim de semana em sua casa. “Gosto das pessoas: são simpáticas, são simples. Se houvesse uma festa, se convidassem a D. Leda e eu estivesse com ela, eu passava a ser convidada também. As pessoas brincam umas com as outras. Sou ‘suspeita’ porque acho-os muito engraçados, gosto da maneira como vivem, da sua maneira de ser e das expressões que têm e inventam a toda a hora. É um povo muito criativo”.

“As idas à piscina do bairro, o chamado piscinão do Deodoro, eram muito engraçadas” recorda, a rir. “É um local bem cuidado, parecido com um pavilhão desportivo, mas com uma piscina enorme ao ar livre. Para lá entrar, uma pessoa controla a nossa higiene e as nossas impurezas, digamos assim. Temos de dar meia volta e se não tivermos nenhuma ‘pereba’ (ferida) levamos com um carimbo no braço e podemos entrar”. 

No geral, os moradores foram bons para esta ‘gringa’ (nome dado pelos brasileiros a uma estrangeira). Uma vez, chegou à favela às 4 horas da madrugada, cheia de coisas na mão que “um rapaz carregou na sua bicicleta”, ajudando-a a ir até casa. São estes pequenos gestos que Ruth vai guardar para sempre na memória.

O lado negro da favela

A portuguesa não passou por grandes situações de aflição durante os três meses que viveu no Muquiço, Mas também porque se precavia. “Quando cheguei ao Rio tinha receio de chegar tarde a casa e andar nas ruas, pois não conhecia bem a cidade. E na favela, diziam-me para não chegar tarde, para não andar sozinha em certos locais”, recorda ao SOL.

“O único momento ‘mais tenso’ que presenciei foi quando tive de atravessar uma rua estreita e passei por um rapaz com uma metralhadora”.

“Todas as favelas têm as suas fações de droga, dois grupos que sempre estão em guerra pelas melhores ‘bocas’ para vender” descreve. Aliás, “quem não mora ali tem medo de entrar, os táxis nunca me deixavam à porta de casa, deixavam-me na estrada. Próximo, mas não dentro da favela”.

Também incomodavam as “invasões” de território e o vandalismo. No pequeno mundo da favela, não há só casas, mas também prédios. A D. Leda morava nesses prédios, “edifícios elevados, onde foi deixando um espaço por baixo. Às vezes, as pessoas do outro lado da favela vinham e tentavam invadi-los, escreviam os seus nomes com tinta, marcando espaço onde queriam construir as suas casas. E só não conseguiam porque os moradores dos ‘blocos’ (prédios) não deixavam”, explica Ruth.

“Mas lá está, as favelas são pequenas cidades que se autossustentam e desenvolvem pelos seus moradores. As pessoas fazem o que podem”, disse ao SOL.

“Apesar de ter achado tudo muito engraçado, não são o local ideal para se viver”, conclui. “A higiene e o saneamento básico são muito pobres, há muito barulho, ouve-se de tudo a qualquer hora, o que não nos deixa dormir, ler ou estudar”, descreve.

O Muquiço não é uma das favelas mais complicadas, mas há outras ainda com melhor ambiente – o Vidigal, por exemplo, uma “favela eclética, cheia de atores e artistas reformados”.

Depois deste banho de realidade, Ruth, entretanto de volta a Lisboa, não viveria numa favela por uma questão de “sonho ou desejo”. E se a vida o determinasse? Aí “também não dizia que não”.  Foram três meses que enriqueceram a sua vida.

joana.alves@sol.pt