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Vamos provar as papas de São Miguel

A vocação agrícola e as tradições associadas ainda são uma realidade em Oliveira de Azeméis. Findo o verão, entrados no outono as searas maduras numa paleta de cores entre o amarelo, o laranja e o castanho, pedem o descanso da colheita. Completa-se o ciclo agrícola e é necessário colher os grãos que irão ser farinha após a moagem nos muitos moinhos que por ali foram construídos. É preciso que as sementes encontrem o seu fim, o seu objetivo final: serem o centro da alimentação na mesa de ricos e pobres. No entanto, antes desse momento vive-se um momento de comunhão e partilha entre rendeiros e senhorios a propósito da entrega da renda, ou seja, da parte da colheita que cabe ao proprietário da terra. Com uma porção da farinha de milho novo agora entregue ao senhorio são feitas as papas. Fortes e portentosas, estas papas incluem, ainda, feijão branco, nabiças, cebola, alho, salsa, ossos de Suã, Vinha d’Alhos (couratos e bucho de porco em vinho tinto, sal e alhos) e sal. Em festa e com a alegria de saberem da prodigalidade do celeiro, senhorio e rendeiro entregam-se à refeição com as papas sabendo dos elos que os ligam. Sem o trabalho, a força e o labor do rendeiro não há farinha. Sem a terra do senhorio, também não há farinha. Por isso, nesse dia comungam do que os une e reforçam a sua relação.

Era assim em tempos idos em que dominava a agricultura e assim, ainda hoje, pela força que a Confraria das Papas de São Miguel imprime a uma tradição que não quer deixar desaparecer. Na verdade, sempre próximo do dia 29 de setembro, dia de São Miguel, recria esta confraria a entrega da renda do rendeiro ao senhorio momento ao qual se seguia a comunhão entre ambos através da partilha das papas. É este o momento alto das celebrações que a confraria desenvolve porque na opinião do seu chanceler «comer papas neste dia reveste-se de alegria e agradecimento, mas também amor, sim, um sinal de amor para com a comunidade porque colher é sempre um momento de gratidão». Por isso, as papas são feitas com farinha de milho novo, porque é preciso agradecer o bem que se recebe festejando em alegria o bem recebido e utilizando-o entre aqueles que mais prezamos. Uma espécie de dádiva da melhor colheita lembrando que, de facto, «colher é um ato de gratidão» que deve ser agradecido, reverenciado, devidamente, exaltado. Por isso, se utiliza a farinha nova em sinal de agradecimento.

À mesa partilha-se a alegria, o agradecimento, a benfeitoria que a natureza e a divindade teve para com senhorios e rendeiros. Por isso, a Confraria das Papas de São Miguel toma a sério a sua missão e num ato de reconstituição etnográfica fidedigna sempre orientada por D. Isabel Maria Calejo, mui nobre senhora que em menina tantas vezes celebrou o dia de São Miguel na casa de seu avô, com a memória transmitida pelo mesmo, e a receita das papas que os seus antepassados comiam à mesa com os rendeiros, leva-nos pelas tradições de antigamente que devem ser mantidas vivas para que os mais novos saibam o que os liga às suas origens. Desde o dia 29 de setembro de 2006 que, por ordem e inspiração de D. Isabel Maria Calejo, a Confraria de Oliveira de Azeméis designada por Papas de São Miguel celebra este momento de final de ciclo agrícola aproveitando para valorizar o prestígio destas papas como símbolo gastronómico local regional e nacional.

Embora as Papas de São Miguel detenham a centralidade desta confraria, há que não esquecer o ‘pão de Ul’, famoso pela sua tradição e sabor, usado na ementa oficial, nos ‘arcanjos’. Feito, ainda, segundo a tradição artesanal, a continuidade é assegurada pela Associação de Produtores de Pão de Ul. No Parque Molinológico de Oliveira de Azeméis (situado nas freguesias de Ul e de Travanca), sobretudo no Núcleo Museológico do Moinho e do Pão (Ul) assiste-se à moagem nos moinhos cujas mós giram com a força da corrente do Rio Ul e vê-se a produção deste afamado pão. Sem dúvida um programa didático para toda a família, é um passeio ao encontro da natureza e das tradições que sustentam um dos alimentos mais importantes na história da alimentação, o pão. 

Ir a Oliveira de Azeméis obriga a uma visita ao Parque de La Salette onde se situa o Santuário em honra da Nossa Senhora de La Salette, erigido em agradecimento pela graça recebida; a chuva que há muito não caí por terras de La Salette, impossibilitando as culturas e onde a fome já grassava. Espaço sobranceiro à cidade, daquele parque avista-se toda a região e sente-se a beleza e tranquilidade facilitadas por uma organização paisagística pensada há um século atrás por Jerónimo Monteiro da Costa, paisagista dos finais do século XIX, que ali traduziu a sua sensibilidade pela horticultura, jardinagem e construção de jardins.

O espírito que fez nascer esta confraria revive-se, não só em cada cerimónia capitular em que, por alturas de São Miguel, na bela Quinta de Cidacos se observa a tradição da entrega da renda e a partilha das papas, como também em cada dia em que os confrades se reúnem. Quer para discutir ideias, propostas, projetos, quer para executar ou concretizar as mesmas, tal é sempre feito à volta da mesa numa refeição cozinhada pelos próprios confrades na sua sede. Assim, se reforçam os vínculos entre todos. Assim, se percebe porque são confrades. Assim, se conhecem melhor e promovem a fraternidade entre todos os que acreditam que as papas são o motivo, mas será sempre a amizade que irá sobressair numa relação entre homens que se estimam e que se respeitam. A genuinidade, a tradição, a veracidade das receitas é ali respeitada como se fosse ordem divina, pois estes confrades sabem que trair o saber e o gosto dos seus antepassados constitui falta de respeito pelos que construíram a história de Oliveira de Azeméis e fizeram dela espaço de tradição e de inovação.

Com todo o trabalho desenvolvido por esta confraria em defesa da gastronomia local, não só fica a ganhar a comunidade, mas todos os que se deliciam com os sabores que são sabiamente orquestrados pela mão de uma referência da gastronomia portuguesa, chefe Lindolfo Ribeiro, protagonista da evolução deste grupo de confrades. Num tempo em que o estatuto de ‘chefe’ não era o de estrela de televisão, Lindolfo Ribeiro soube olhar as receitas que os seus antepassados lhe deixaram no baú e soube recriar sabores únicos, autênticos, deliciosos. Ainda bem que Portugal pode contar com a Confraria das Papas de São Miguel.

* Presidente das Confrarias Gastronómicas Portuguesas