Opiniao

A democracia bloqueada

A persistência invulgar do número de indecisos - por muitas dúvidas que nos suscitem as tracking polls e sondagens realizadas nas últimas semanas - mostra a desorientação e o desamparo de grande parte do eleitorado perante as escolhas que lhe são propostas no próximo domingo. Porventura nunca como agora, em vésperas de eleições, tantos portugueses se questionaram em quem irão votar ou até se irão votar, o que faz temer também um aumento significativo da abstenção (tendência que, aliás, se tem vindo a agravar ao longo do tempo).

Vivemos um período de crispação e divisão quase sem precedentes na nossa história democrática, em que não se vislumbra um cenário governativo consistente e estável que possa corresponder aos tremendos desafios em que o país se debate, fustigado pelas agruras de uma crise que só ilusoriamente começámos a superar.

Salvo uma reviravolta improvável de última hora, a hipótese de formação de um Governo de maioria absoluta - ou de um Governo minoritário que possa sobreviver com o apoio pontual de outras forças parlamentares - parece afastada do horizonte.

Além disso, o calendário eleitoral que se segue - com a realização das presidenciais e a inibição dos poderes do atual e próximo Presidentes nos meses finais e iniciais dos respetivos mandatos - só servirá para agravar as coisas, num momento em que Portugal se encontra extremamente debilitado para enfrentar um clima interno e externo recheado de incógnitas, perigos e ameaças cuja extensão é impossível antecipar.

Assim, o que temos pela frente é o risco de um bloqueio democrático, em que as diferentes forças políticas, incapazes de se entenderem ou estabelecerem compromissos para além dos seus territórios de implantação tradicional, poderão conduzir o país a uma situação de impotência e paralisia.

Ora, se isso acontecer, talvez seja já tarde para acordar para a realidade e reformar profundamente - ou, mesmo, refundar - um sistema político estratificado e arcaico, em que a representação popular ficou refém de três pólos que se foram cristalizando ao longo do tempo.

Temos um bloco de direita que conseguiu resistir na sua fortaleza, apesar dos abalos “irrevogáveis”, um partido de centro-esquerda que depende do ‘voto útil’ à sua esquerda para poder governar e, finalmente, uma esquerda de protesto inamovível nos seus dogmas e pouco predisposta a aceitar compromissos de governo que ‘perverteriam’ a sua pureza ideológica.

Acresce ainda uma miríade de pequenos partidos, uns já completamente desatualizados no registo dos seus fundadores e outros criados a partir de meros casos de egocentrismo mais ou menos anedótico ou de micro dissidências ideológicas sem expressão e audiência. Curiosamente, o único desses partidos que, aparentemente, poderia funcionar como ponte entre a esquerda de protesto e a esquerda de governo, o Livre, revelou-se uma das maiores desilusões da atual campanha e é duvidoso que chegue, sequer, a eleger um deputado.

Depois do mandato austeritário que seguiu às ordens da troika - ou até para além dela - e hoje promete compensar com a restituição dos direitos usurpados aos cidadãos, a coligação de direita soube capitalizar os deslizes e indefinições socialistas, incluindo a esperança contida num programa económico relativamente ambicioso mas que tropeçou no hermetismo tecnocrático da sua linguagem.

Além disso, o amadorismo revelado noutros episódios da campanha contribuiu por afastar o PS da credibilidade necessária para encarnar uma alternativa convincente à aliança PSD/CDS. O medo de uma mudança sem efetiva solidez e de não existirem verdadeiras alternativas à crise que se abateu sobre o elo mais frágil da Europa - com o desaire grego a funcionar como vacina - acabou por diluir as veleidades em encontrar um rumo diferente, pelo menos dentro das regras impostas por Berlim, Bruxelas e o FMI.

É isso que também explica, para além das circunstâncias portuguesas, o bloqueio democrático: sem uma real alternativa, resta a fé de quem quer ainda acreditar, apesar da resignação e do desalento - ou resta o protesto (como forma de sublimar a impotência perante essa alternativa inexistente nesta Europa, a não ser através de uma rutura de custos incalculáveis).

Quer então isto dizer que não serve para nada votar? Não necessariamente. Para quem está disposto a confiar no novo ciclo da coligação, para quem não desistiu de experimentar por convicção ou voto útil uma mudança de rumo proposta pelo PS, ou ainda para quem quer dar força ao seu protesto, há várias opções disponíveis. Pessoalmente, confesso-me ainda indeciso, mas estou certo de que irei votar. Mesmo os gestos inúteis, como o de Sísifo, podem fazer sentido.