Internacional

70 anos da ONU: os recados e até os insultos da Assembleia Geral

Anfiteatro de proezas várias, em 70 sessões inaugurais de setembro da Assembleia-Geral (AG) das Nações Unidas já subiram ao palco um orador maratonista e um teatral pregador – e já se deu voz aos discursos mais anti-ONU e mais homofóbico.

Quem preside a esta 70.ª sessão é Mogens Lykketoft, político dinamarquês nascido no ano em que o primeiro presidente da AG tomou posse: 1946, com o belga Paul-Henri Spaak nas rédeas e uma Organização das Nações Unidas a dar os primeiros passos no pós-II Guerra Mundial. Seria preciso esperar até 1995, na 50.ª sessão da AG, para ser eleito um (e único) português: Diogo Freitas do Amaral.

Nesta sessão, Lykketoft foi o único candidato apresentado pelo grupo da Europa Ocidental e Outros Países, o conjunto geográfico representado nesta legislatura (os quatro outros grupos são África, Ásia, América Latina e Caraíbas, Europa de Leste), sendo as presidências anuais e rotativas – e os candidatos eleitos por maioria simples entre os Estados-membros. China, EUA, França, Reino Unido, Rússia – os membros permanentes do Conselho de Segurança – não apresentam candidatos para este cargo. Para a 71.ª sessão, o presidente será do grupo de Estados asiáticos.

Formalismos à parte, houve momentos ‘para mais tarde recordar’, como os que se seguem, em 70 reuniões de líderes mundiais para a AG em Nova Iorque.

Que futuro líder foi chamado de ‘iletrado’ por Fidel?

Recordista da mais longa intervenção dos últimos 70 setembros, Fidel Castro monologou durante quatro horas e 29 minutos. O ano foi 1960, num mundo politicamente cristalizado pela Guerra Fria, com o líder cubano a elogiar a então URSS e a defender a ilha, já livre de ser uma “colónia norte-americana”. Sem contemplações discursivas pelos candidatos Richard Nixon e John F. Kennedy, Castro descreveria este como um “milionário iletrado e ignorante”. No final do mesmo ano Kennedy era eleito Presidente dos EUA.

O nariz de Chávez detetou enxofre

Avançando para 2006: por mais voltas que o mundo tenha dado, certas rotinas mantiveram-se e, com elas, o conforto da previsibilidade. De Hugo Chávez não se esperava outro discurso que não o antiamericano. O PR venezuelano não desiludiu, mas acrescentou teatralidade à intervenção. “Ontem, o diabo esteve aqui e ainda cheira a enxofre”, declarou, dramatizando com o sinal da cruz. Chávez ainda juntou as mãos em prece, protegendo-se de influências malignas do homólogo norte-americano George W. Bush, esse “porta-voz do imperialismo”, que tinha discursado no dia anterior.

Foi também nesse ano de 2006 que a AG foi presidida, pela terceira e última vez, por uma mulher. Antes da bareinita Haya Rashed Al Khalifa, o cargo foi ocupado pela liberiana Angie E. Brooks (1969) e pela indiana Vijaya Lakshmi Pandit (1953), uma desigualdade numérica que parece revelar consenso mundial nestas escolhas.

Kadhafi estreou-se a rasgar (literalmente)

Comandava a Líbia há 40 anos quando discursou pela primeira vez numa sessão inaugural da AG, em 2009. Como outros líderes (também era uma estreia para Barack Obama), ultrapassou o tempo da praxe, 15 minutos. E ninguém conseguiu calar Muammar Kadhafi durante uma hora e 38 minutos, tempo suficiente para renomear o Conselho de Segurança de “conselho do terror” e questionar o caráter permanente dos seus membros e o direito de veto. Na ótica kadhafiana, isso era equivalente a “terrorismo, como o terrorismo da al-Qaeda”.

O líder líbio foi perdendo espetadores, mas a gota de água na intervenção do debutante foi rasgar a Carta das Nações Unidas – para o caso de alguém não ter percebido o desenho. Dois anos depois, Kadhafi morria na insurreição líbia.

‘Nós não somos gays’

Robert Mugabe ostenta no currículo predicados como ser um dos líderes africanos há mais tempo no poder (desde 1987), sem que com isso tenha conseguido erguer a economia do país e melhorar a vida dos zimbabueanos. Também é o chefe de um dos Estados mais homofóbicos do planeta, onde a homossexualidade é crime, o que permite a Mugabe impunidades como dizer que os gays são piores que “porcos e cabras”.

Recorrendo a figuras de estilo e vocabulário mais subtis, o Presidente de 91 anos declarou esta semana na AG: “Rejeitamos tentativas de prescrever novos direitos que são contrários aos nossos valores, normas, tradições e crenças”. Receando talvez não ser compreendido, esclareceu: “Nós não somos gays!”.

ana.c.camara@sol.pt