Politica

BE: A terceira força política com o melhor resultado de sempre

A noite em que o Bloco se tornou a terceira força política de Portugal começou a desenhar-se pouco antes das 20h. No primeiro andar do teatro São Jorge, a sede escolhida, todos colocaram os olhos nas televisões para ver as primeiras projeções: O BE estava à beira de um resultado histórico, passando à frente da CDU. Nessa altura, ainda não se sonhava sequer que o partido conseguiria 19 mandatos, mais 11 que nas ultimas legislativas.

Mariana Mortágua subiu ao palco e fez a primeira intervenção da noite. Falava já no melhor resultado de sempre, manifestando, porém, uma preocupação: a vitória da coligação PSD/CDS.

Nessa altura eram apenas conhecidas as projeções eleitorais e a considerar o máximo e o mínimo de todas, tudo apontava para que votação no BE ficasse entre os 8% e os 12%. O que acabaria por se confirmar. O partido liderado por Catarina Martins conseguiu 10,2%, deixando para trás o resultado dramático de 2011: 5,17%.

"Do que sabemos de todas as projeções o BE pode estar à beira do melhor resultado de sempre", começou por referir Mariana Mortágua.

Após uma grande ovação, continuou, com uma voz mais grave: "Vemos no entanto com muita preocupação as projeções que dão como vencedora a direita".

Ainda era cedo para mais comentários e a deputada que se tornou este ano um elemento fundamental para o partido terminou: "O BE sai reforçado [para defender aquilo em acredita]”.

O BE aguarda ‘agora a resposta dos outros partidos’

Cada notícia, cada resultado, cada mandato conseguido conseguia arrancar gritos e fazer explodir os militantes e simpatizantes presentes, que de vez em quando se calavam para ouvir a emissão em direto dos três canais de televisão.

Pedro Filipe Soares, número dois pela lista de Lisboa, foi quem se seguiu. Numa curta reação aos jornalistas, mostrou-se cauteloso com o resultado que a direita ainda poderia atingir, mas deixou uma certeza: “Para nós era importante que a coligação não conseguisse maioria absoluta. Perdendo a maioria absoluta, perdem também o governo”.

E a coligação Portugal à Frente acabou mesmo por não conseguir a maioria absoluta. Mas é preciso uma mão do PS para que perdesse o governo. E foi isso que Catarina Martins frisou quando chegou a sua vez de subir ao palco.

 A líder do Bloco de Esquerda anunciou que o seu partido iria rejeitar um governo PSD/CDS no início da legislatura. “Uma coligação de direita não será governo em Portugal se não tiver maioria”, disse na sua declaração da noite eleitoral, congratulando-se com o melhor resultado de sempre do BE.

Ainda assim deixou o desafio: O BE aguarda “agora a resposta dos outros partidos” da esquerda. 

Por entre agradecimentos ao "meio milhão de eleitores" que, segundo as projeções, haviam votado no partido, deixou claro que o Bloco iria cumprir as suas promessas.

"Segundo as projeções alicerçadas em votos contados, temos mais votos, mais mandatos e mais força que nunca”. E tinham.

A porta-voz do BE lembrou que apesar de a coligação de direita ter sido a "candidatura com mais votos", teria uma representação menor. E foi aí que pressionou o PS: "Se a coligação de direita não tiver maioria absoluta não será pelo BE que a coligação conseguirá formar governo".

Disse mesmo que caso Cavaco decida "por filiação partidária ou por não estar atento aos votos" dar posse à coligação PSD/CDS, o Bloco "rejeitará no Parlamento essa possibilidade". E foi neste ponto que terminou com a provocação: "Esperamos a resposta dos outros partidos".

A ‘heroína da campanha’

Sobre o futuro, Catarina Martins disse que o país "precisa curar as feridas", precisa de investimento e de emprego.

"O Bloco de Esquerda sabe que serão anos difíceis, mas não esquece o que é essencial. A crise social, os reformados, uma em cada três crianças estarem na pobreza", disse.

E antes de concluir - com um agradecimento a todos os ativistas do partido, aos deputados que terminaram o seu mandato e aos que agora foram eleitos - frisou: "O Bloco não desiste de Portugal".

A “heroína da campanha”, como lhe chamou Francisco Louçã não quis fazer mais comentários.

A grande agitação foi travada com a entrada em cena de António Costa. Quando apareceu na televisão para reagir aos resultados, o líder do PS deixou em suspenso todo o primeiro andar do São Jorge. Esperava-se que alinhasse com o BE, que prometesse que não iria rejeitar um governo da coligação. Mas não foi o que aconteceu e ouviram-se assobios.

Ao mesmo tempo, o Bloco via cada vez mais consolidada a ultrapassagem ao Partido Comunista Português, que estava do outro lado da Avenida da Liberdade - resultado até comentado por Paulo Portas.

À 00h47, Catarina Martins entra na sala e diz que os resultados estão fechados: “Temos a maior percentagem de sempre, o maior número de votos de sempre”.

Com um sorriso cansado, lembrou em jeito de brincadeira que com a eleição do deputado Jorge Falcato – portador de deficiência física - o BE conseguia mais uma vitória: “O plenário da assembleia vai ter rampas”.

De seguida, pediu desculpa por ir embora e disse: “Estou cansada e amanhã teremos imenso trabalho pela frente”.

As vitórias do Bloco

Dos 22 círculos eleitorais, o BE conseguiu representação em 10. No total são 19 deputados. Pela primeira vez conseguiu eleger um deputado pela Madeira e recuperou os que tinha perdido em Braga, Coimbra, Leiria e Santarém.

Total:

Braga – 1

Porto – 5

Aveiro – 1

Coimbra – 1

Leiria – 1

Santarém – 1

Lisboa – 5

Setúbal – 2

Faro – 1

Madeira – 1

carlos.santos@sol.pt